Babi Teles é jornalista de formação e nos últimos 12 anos vem trabalhando com recursos humanos.

ela fez carreira em uma multinacional brasileira, onde pode contribuir em projetos internacionais, passando pela Líbia, Tunísia, Tailândia e Sri Lanka e, de volta ao Brasil, na região Norte e Nordeste do país.

após essa vivência corporativa, estudou em Babson College, nos Estados Unidos. foi quando decidiu entrar para o mundo do empreendedorismo e atuar também como palestrante, facilitadora e consultora para projetos de RH, inovação e carreira.

nesse período ela ajudou a criar a startup 99jobs.com, onde atuou como co-fundadora e Relações Externas.

em 2018 lançou seu primeiro livro, “Sem medo, sem rumo”, sendo convidada, a partir dele, a compor uma mesa na FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty – em Julho de 2018 – e a lançá-lo na Bienal do Livro de São Paulo, em Agosto do mesmo ano.

hoje ela é fundadora da paxe, sua segunda startup, que nasce para ajudar as pessoas a se reinventarem.

eis em um trecho retirado do site da empresa: “O mundo muda, pessoas mudam, carreiras também mudam. Para os inquietos, insatisfeitos, e questionadores do mundo do trabalho ou em busca de autoconhecimento, chegamos para ajudar. =)”

LIVROS CITADOS
PESSOAS CITADAS
  • Tim Ferriss
  • Virginia Woolf
  • Julia Cameron
  • Sara Blakely
  • Brené Brown
  • Aziz Ansari
  • Elizabeth Gilbert
  • Oprah Winfrey
  • Roman Krznaric
  • Carl Gustav Jung
  • Conceição Evaristo
  • Djamila Ribeiro
  • James Hillman
  • Guimarães Rosa
LINKS IMPORTANTES
FRASES E CITAÇÕES
  • “Algumas pessoas procuram os pais, outros padres e eu procuro os meus amigos” – frase de Virginia Woolf citada por Babi Teles

se você curtir o podcast vai lá no Apple Podcasts / Spotify e deixa uma avaliação, pleaaaase? leva menos de 60 segundos e realmente faz a diferença na hora trazer convidados mais difíceis.

Henrique de Moraes – Olá Babi seja muito bem-vinda ao calma!, prazerzaço ter você por aqui eu tô com muita coisa na pauta para te perguntar, fiquei ansioso, sou uma pessoa ansiosa então assim imagina quando eu começo a ver, pesquisar sobre as histórias das pessoas eu começo a ficar nervoso, “Preciso começar logo, quero fazer as perguntas” e eu tô com muita coisa aqui para te perguntar hoje então seja muito bem-vinda e prepare-se porque eu vou te bombardear de perguntas, desculpa

Babi Teles – Beleza Henrique, prazerzão estar aqui, muito honrada com o convite então espero que, eu também tô muito ansiosa assim para responder o que eu não sei mas acho que a prosa vai ser boa.

Henrique de Moraes – Vamos lá, vou começar de um lugar meio incomum assim mas vou pedir até para você contextualizar um pouco mas eu queria que você me contasse quem é a Sara e qual importância ela teve na sua vida, e aí se você puder só trazer um pouquinho de contexto histórico, onde você tava, qual momento da vida, para as pessoas entenderem um pouquinho

Babi Teles – Legal. Nossa começou assim já?

Henrique de Moraes – Desculpa

Babi Teles – Imagina. Sara é uma das pessoas mais importantes na minha vida e eu acho que eu tenho esse privilégio de quando eu conto a minha história, apesar de obviamente contar de um lugar de primeira pessoa a minha história ela definitivamente ela é co-construída por muitas pessoas né então toda vez que eu faço uma autorreflexão da minha jornada sempre tem gente no meu caminho muito importante, talvez pessoas que foram mais importantes do que até eu mesma em determinado momento e a Sara foi uma delas. Sara era uma menina assim de alma mas uma moça mais velha do que eu na época, eu tinha quando eu a conheci, foi em 2009, eu tinha 24 pra 25 anos e ela talvez 28, 30 mas era uma menina, parecia uma menina de 9 anos. Eu me formei em jornalismo né, em comunicação, trabalhei com marketing em BH e aí logo que me formei vim para São Paulo trabalhar com marketing e aí um ano e meio depois que eu tava aqui eu recebi uma proposta muito inusitada de trabalhar na Líbia, no norte da África em Trípoli num processo de expatriação, e isso era 2009, início de 2009 então assim não tinha Google direito né, não tinha um buscador então por mais que a diretoria internacional tivesse tentado me antecipar o que eu encontraria nessa experiência como expatriada num país tão diferente, a gente nunca tá preparado né então quando eu cheguei primeiro assim, que eu cheguei e as minhas duas malas não chegaram então cheguei sem roupa, sem nada numa viagem de muitas horas né porque a escala era na Europa e até você ir pra Líbia você tinha horas de espera então assim cheguei assustada, preocupada, cansada, com medo mas com muita adrenalina e logo no aeroporto eu vi que realmente era uma experiência muito diferente porque só haviam homens né, homens com turbantes e barbas então assim o desconforto que a gente tem hoje né de ver as pessoas com máscaras na rua é o normal lá, as mulheres quando você vê são poucas e a grande maioria só com os olhos pra fora porque para quem não sabe a Líbia é um país islâmico radical e além disso ele era governado por um ditador então o radicalismo, se é possível dizer ele era ainda mais tenso né, ainda mais forte, ainda mais extremo então eu tive esse desconforto de chegar no aeroporto e não conseguir sair nem para onde buscava a mala, até descobrir que minha mala não havia chegado, as duas malas não haviam chegado porque a sinalização em árabe né então assim eu tava analfabeta, surda e muda para conseguir sair do aeroporto e aí finalmente quando eu consegui sair tinha um pessoal da empresa me esperando e eu fui para o hotel e depois do hotel no dia seguinte eu já fui né introduzida num processo de integração e aí todas essas mini experiências de primeiro contato com o país eram masculinas e machistas e misóginas e muito tensas né, era um lugar extremamente desconfortável para mim, e aí eu ficava esperando “Gente será que vai ser assim, não vai ter nenhum momento que eu vou relaxar o ombro?” e aí quando eu fui pra matriz, trabalhei 3 meses diretamente com o corpo estratégico da empresa e aí depois de três meses eles me levaram, me transferiram para um dos projetos, a gente tinha o aeroporto e uma estrada, e esses três meses eram meses meio que anestesiados sabe, eu não conseguia entender muito bem o que tava acontecendo, não era uma possibilidade sair enfim por questões diplomáticas entre Brasil e Líbia então não podia simplesmente falar “Gente isso aqui é muito estranho, não vou dar conta, não vou conseguir me encaixar nessa experiência”, não era uma possibilidade eu tinha que lidar com aquilo pelo menos por um curto período de tempo, consegui passar por essa provação de 3 meses e aí me deram o feedback de que eu tava performando muito bem, inclusive que essa experiência na matriz era muito pequena pra mim então que eu tinha que ir para alguma das obras, ou aeroporto ou estrada e aquilo me assustou mais uma vez porque na hora que eu tava achando que eu tava adaptada né com esse ambiente super masculino e patriarcal eles me falaram “É uma experiência rica culturalmente porque você vai lidar com várias pessoas de outros países, mas tem mulher” e essa coisa de “tem mulher” né porque eu só tinha naqueles 3 meses contato com uma mulher que era uma chefe brasileira que eu tive, falei “Bom então acho que vou tentar um pouco mais”, então eu fui para essa experiência nessa obra na estrada como uma tentativa de me adaptar com a cultura local e sair dessa proteção expatriada que eu tinha com essa chefe brasileira e foi aí que eu conheci a Sara. Então eu saio de uma experiência de bolha né, protegida, de casa/escritório, escritório/casa, sem conviver de fato com a cultura islâmica, com muito preconceito, com muito julgamento e quando eu cheguei para assumir parte da área de recursos humanos desse projeto, que a gente chegaria a ter 8 mil funcionários, mais de 90 países representados enfim, uma Torre de Babel né como experiência, me apresentaram a Sara como “Olha pode contar com ela que ela é assistente” e aquilo para mim eu falei “Gente como assim? Tem uma mulher líbia que trabalha e fala inglês?” então a Sara pra mim foi um portal não só de identificação como de liberdade, que era o que eu mais sentia falta naquele momento, liberdade de me expressar, da liberdade olhar nos olhos porque logo que você chega no país é ensinado a não fazer contato visual, que você não pode estabelecer nenhum vínculo emocional com ninguém, principalmente com homens e era só com quem eu lidava, então poder olhar nos olhos da Sara e poder me identificar com o feminino foi muito importante e muito poderoso e a Sara, eu digo que a Sara sendo esse reflexo, o espelho como reflexo, o outro sendo esse espelho como reflexo, ela foi a minha experiência vivencial do que que é você viver com empatia, por empatia, uma comunicação empática, uma relação empática, uma troca empática né porque a partir do momento que eu entrei em contato com ela eu relaxei meus ombros e eu me entreguei pra experiência de um jeito que eu não imaginaria que eu daria conta. E eu parei, e isso é um aprendizado que eu levo até hoje para minha vida inteira, que é o aprendizado que a Sara me deu, olhar o mundo sob uma outra perspectiva que não é a minha e me tirar muito do centro do mundo sabe, a coisa do autocentrismo né, do egóico, trabalhar um pouco essa humildade, inclusive humildade intelectual porque apesar da gente brasileiro ter sido colonizado a gente tem essa arrogância em relação ao ocidente e oriente e ter aprendido através da Sara, por meio da relação com ela, que todo mundo tem algo para nos ensinar e que as relações elas não devem ser baseadas em estar certo ou estar errado, em sim ou não né mas no que faz sentido então a Sara me abriu um olhar para o mundo que eu nunca tinha tido até então e que eu nunca mais pude ser a pessoa que eu tinha sido até aquele momento né, então toda relação que eu tenho hoje é de escuta, é de abertura e é de me permitir discordar né, que obviamente eu discordo de muita coisa da cultura muçulmana mas é tipo o que que o outro tem para me ensinar nessa relação e o que que ele tá vendo que eu não consigo enxergar, então ela é um caminho sem volta para mim assim de visão de mundo sabe, de relacionamento.

Henrique de Moraes – Você falou sobre tanta coisa que eu queria destrinchar aqui, vou voltar um pouquinho nessa história inicial pra uma coisa que me chamou muito a atenção que é essa, como que você lida, como que você trabalha com majoritariamente homens sem poder fazer contato visual, como que era isso assim, como que você aprende, desaprende na verdade né porque o brasileiro especialmente é muito caloroso, tem essa coisa de ser muito próximo, às vezes até de maneira estranha para as pessoas que moram, que estão em outras culturas, e você vai para o outro extremo né, completamente do outro lado do espectro assim, como é que foi essa adaptação e você lembra como que você conseguiu desenvolver essa distância, você criou algum macete, sei lá, como que se faz isso?

Babi Teles – Henrique isso é muito engraçado porque uma pergunta recorrente que me fazem quando descobrem que eu morei um ano e meio né, fiquei lá um ano e meio, achei que não ia aguentar dois dias e fiquei um ano e meio, e sempre me perguntam “Como é que você deu conta?” eu não sei como, então como eu não sei te dizer até porque depois fiz muita terapia na vida, não descobri mas no início da pandemia agora no ano passado eu até escrevi um artigo no Linkedin sobre isso, de como que a experiência na Líbia me ajudou a enfrentar a pandemia, então no início da pandemia, especificamente nos primeiros três meses de quarentena ali né de Março à Junho, eu vi muita gente realmente desesperada né, desequilibrada emocionalmente e indo para válvulas de escape muito autodestrutivas né, seja de compensação na comida, no álcool, no cigarro, nas agressões, nas relações né e eu falei assim “Gente essas pessoas”, meu desespero era “Como é que ajuda essas pessoas a não fazerem isso?”, e aí eu resgatei essa experiência na Líbia porque a Líbia me ensinou, de novo né, outra forma de amar sabe, a gente é muito touch, a gente é muito tato mas de novo, a máscara com a pandemia mostrou para a gente que o olhar ele acolhe muito né, existe uma compaixão e uma solidariedade para o olhar e o brasileiro ele tem isso, quando a gente passa na rua e vê crianças, vê pessoas dormindo nas ruas, aquele olhar de tipo assim “Eu não vou te dar R$ 1 mas eu sinto muito, eu posso te dar um prato de comida, eu posso dar muda de roupa para lavar, posso te dar alguma coisa, eu estou te vendo e eu estou te acolhendo dentro das minhas limitações” e você não precisa abraçar ou tocar alguém para fazer com que o outro seja visível né, que ele seja percebido, que ele seja compreendido então eu fui para esse lugar para conseguir aprender esse jeito de amar que não é através do toque, aprender essa experiência de se relacionar mas não foi fácil assim, eu falo hoje de uma maneira que parece que foi fluida, que foi acontecendo naturalmente, não não foi, a minha primeira reação foi sempre de negar, estamos aí com o negacionismo de novo, foi de negar e de ter muita raiva, revolta de “Como é que as pessoas são assim? Como é que não abraço, como é que não beija?”, inclusive no meu primeiro ano lá que foi meu aniversário, um dos gerentes que era um dos meus diretos, tinham vários líderes mas o meu chefe direto ele era brasileiro e aí ele cruzou comigo num corredor, e ele olhando para o chão e eu também, ele passou por mim e falou “Feliz Aniversário”, não eu não aguentei, tive vontade de abraçar ele, beijar ele na boca se possível fosse, de tipo assim “Me ama, é meu aniversário pelo amor de Deus, vamos sair, vamos beber, vamos festejar, vamos ser livres”, então aquilo me deu um misto de sensações, vontade de agarrar ele e eu não aguentei, ele foi passando mesmo, cruzando por mim no corredor eu peguei na mão dele assim e tipo puxei ele pelo braço do tipo “Me olha” e aí a gente se olhou muito intensamente nos olhos, ele abaixou a cabeça e seguiu. Imediatamente veio um disciplinar, que era um representante do Ministério do Trabalho que a gente tinha nos contratos, repreendeu meu chefe e deu advertência para ele ficar alguns dias sem poder ir na obra e aí eu tive um outro aprendizado, de você respeitar a cultura alheia e que sua única decisão é respeitar, e se você não respeitar, se você não quiser fazer parte daquilo você que saia, você não vai conseguir se fazer valer nas suas crenças num lugar que tem outra conduta e outro jeito de se comportar, que a fala do disciplinar foi “Quando você estiver na minha casa, sinta-se em casa mas nunca se esqueça que você está na minha casa”, sabe essa coisa que a gente tá hoje de “Meu corpo, minhas regras”? É isso, então eu fui para esse entendimento de “Tá, como que é amar aqui na sua casa?”, é assim mas não é fácil e no blog que eu tinha na época que acabou virando uma coletânea de livros eu falo isso, eu sempre peço para mulheres tentarem isso né, “Vá ao supermercado e olha para baixo”, então todo lugar que você estiver com mais pessoas em público e que você não pode demonstrar esse afeto olhe para baixo mas busque de alguma forma encontrar no seu corpo como que você pode e consegue se solidarizar então assim, são muitos aprendizados e eu acho que se eu pudesse responder um “como sobreviver a isso tudo” em paralelo com o que a gente tá vivendo hoje, ser humilde e aceitar que a vida não é da forma como a gente acha que ela deveria ser, definitivamente.

Henrique de Moraes – É, acho que você teve a experiência mais intensa nesse sentido né para trazer essa lição porque assim a gente viaja mas a maioria das pessoas acho que viaja pros mesmo lugares de sempre né, existe um circuito que o brasileiro vai normalmente que às vezes a gente tem o impacto da diferença cultural mas assim, você tá transitando em lugares turísticos né, onde tem uma máscara de certa forma, as pessoas estão atuando de certa forma pra te receber enfim, você só vai sentir de fato diferença cultural talvez se você for para algum lugar mais interior. Eu tô morando em Portugal né, tô em Lisboa agora e assim, com a pandemia eu também não tenho sentido tanto essas coisas porque, a diferença cultural né, porque a gente tá muito em casa e em família né, eu, minha esposa e minha filha mas só de você morar em um lugar você já viveu um pouco das experiências embora que não seja um impacto tão louco de cultura, aí você consegue perceber, especialmente quando você sai das zonas turísticas e no momento que a gente tá nada até muito turístico também né então gente vai sentindo agora imagina se mudar para um lugar assim onde tudo é diferente, novo, não sei nem como, o que falar

Babi Teles – É difícil. Henrique mas sabe uma coisa, vamos ser honestos né nem tudo são flores e todas as flores tem espinhos. Acho honesto dizer que, é que realmente eu sempre tento olhar para as coisas como aprendizagem, sair da coisa do bom e do ruim mas tem uma coisa que eu ainda não recuperei desse aprendizado intenso né, do não toque, da ausência do carinho e tal que eu acabei incorporando inconscientemente acho que do ponto de vista de autodefesa mesmo, de proteção para não machucar, eu acabei incorporando na minha personalidade, uma masculina mesmo né, de intensificar meu arquétipo masculino para conseguir dar conta, quase não me permitir ser mulher entendendo que ser mulher me colocaria nessa coisa da fragilidade feminina, que lá também desconstruí isso, não é verdade, não é o sexo frágil muito pelo contrário, é o sexo forte mas eu que vinha nessa premissa de que homem é forte e mulher é fraca então você não pode ser mulher enfim, terapia explica, mas eu tive dois aprendizados não tão bons dos quais eu não consegui me livrar ainda apesar de acreditar que se você aprende você pode desaprender mesmo, se flexibilizar para desapegar daquilo que não te serve mais, mas uma coisa “ruim” de ter me adaptado à esse jeito lá, um é isso, ter forçado demais meu arquétipo masculino e o outro é ter me tornado uma pessoa menos carinhosa né, isso é uma coisa que eu escuto muito das minhas amigas porque eu sempre fui muito de abraçar, sou mineira então assim, eu te conheci vem tomar um café lá em casa, vem comer pão de queijo, minha mãe fez bolo, casa muito cheia, muito primo, muito amigo, eu sempre fui muito extrovertida, muito sociável então não me recuperei disso, tanto é que quando eu voltei para o Brasil e fui para o Maranhão eu criei consciência sobre essa rigidez de afeto que eu tinha adquirido, no feedback de um trainee, que eu fui para o Maranhão né quando voltei para o Brasil, eu trabalhei em outro projeto entre Maranhão e Pará e eu falo que foram os dois porque apesar da base comparativa ser em São Luís do Maranhão a gente era responsável por 22 canteiros de obras entre Maranhão e Pará porque a gente acompanhava a exportação do minério de ferro, então saía ali do sul do Pará, de Parauapebas pra escorrer até a exportação do porto de São Luís, então eu realmente ficava nos dois ambientes, também super inóspitos, super masculinos e aí até que teve um momento de integração em um dos canteiros de obras no interior do Maranhão, um lugar bem difícil também culturalmente, mais triste ainda por ser Brasil porque aí você dialoga enfim, a linguagem te conecta mais com o coração então foi emocionalmente uma experiência mais difícil do que a Líbia o Maranhão e Pará pra mim, e aí quando eu tive clareza disso foi num momento que a gente estava tomando cerveja, trocando ideia e eu sempre a única mulher né, trocando ideia, cerveja, recebendo trainee enfim, momento de descontração e aí chegou um trainee, na época lá com seus 24 anos, 25 anos e falou assim “Mas eu não entendi, onde é que você trabalha?” eu falei “No RH”, aí ele falou “Calma, você é a Bárbara Telles do RH?”, eu falei “Sou”, aí ele falou “Impossível”, aí eu falei “Gente como assim? Sou eu” e aí eu mostrei meu crachá aí ele falou assim “Mas você é muito gente boa, você é muito leve, você é muito divertida”, eu falei assim “Gente não tô entendendo esse comentário do trainee”, aí eu falei assim “Mas eu não entendi o que você tá querendo dizer”, aí ele falou “Você conduziu todo meu processo de saída”, eu não lembro se ele era de Salvador, ele era do Nordeste, não era daqui do Sudeste não mas enfim ele falou “Você conduziu todo meu processo de alocação no projeto e a imagem que eu tinha da Bárbara Teles era assim, megera”, eu falei “Que isso gente”, na lata ele falou, aí ele falou “A imagem que você tem, o povo tem medo de você” e aí eu falei “Gente como assim as pessoas tem medo de mim? Eu sou ótima, sou maravilhosa, super generosa” e aí naquele momento caiu a ficha de que eu precisava desaprender porque eu já estava num contexto cultural e social Brasil em que eu podia ser leve, ser acolhedora, abraçar, rir e não ser essa coisa meio de distanciamento físico e emocional, mas apesar de ter tido clareza naquele momento, dois anos depois de Líbia, e quase 10 anos atrás eu ainda não voltei assim, eu ainda não me sinto principalmente em ambiente corporativo, profissional ainda não sinto tão à vontade em ser quem eu fui, ainda faço uma ressalva meio europeia nesse sentido né, até tenho um amigo que mora na Dinamarca e ele falou “Baby te entendo muito” porque ele mora também acho que há quase 10 anos na Dinamarca e ele falou “Cara aqui as pessoas se abraçavam pouco, depois da pandemia acho que a gente não se abraça nunca mais” eu falei “Nossa isso é triste, isso é ruim”, e eu fale pra ele, falei “Breno cuidado porque talvez também seja um caminho sem volta sabe e eu não te recomendo que você se adapte nesse outro extremo, acho que é importante a gente tentar uma integração e um equilíbrio de ambos né, nem tanta farra mas também nem tanta frieza”

Henrique de Moraes – Eu acho, eu tava conversando isso com uma amiga minha que ela tá morando agora em Paris né, e que quando você, eu tenho a sensação estando aqui, eu não voltei para o Brasil né porque a gente veio no meio da pandemia então assim não faz sentido a gente viajar e a gente tá aqui há quase um ano e a gente não voltou ainda para ver as pessoas mas eu falo com ela que eu tava com muita saudade, tô com muita saudade do Brasil, das pessoas, da comida e de várias coisinhas, esses detalhes que a gente começa a sentir falta quando a gente está fora mas eu falo que provavelmente se eu ficar muito tempo no Brasil eu vou começar a sentir falta de algumas coisas daqui e eu tenho a sensação, e ouvindo você falar, que no final das contas assim essas experiências elas deixam a gente sem, da mesma forma que eu acho que eu não vou sentir que eu tenho mais um lar específico sabe, que o Brasil é o meu lar ou que aqui é meu lar, como pessoa, como ser humano acho que a gente também muda pontos da gente não se reconhecer mais com a gente era né e talvez o ponto seja não brigar com isso também né assim, entender é lógico as diferenças e como você falou, entender como aprendizado e assim, aos poucos a experiência você estando no Brasil ou você estando e vivendo o que você tá vivendo hoje também vai impactar um pouco você e você vai deixar de reconhecer a pessoa que você era na Líbia, que você era no Maranhão e assim por diante né porque a gente vai se tornando outras pessoas, não tem muito jeito

Babi Teles – Pois é, e é um processo que requer muita coragem né para você se permitir entender quem você tá se tornando né e nesse seu “se tornar”, quem você tá deixando de ser e isso envolve suas relações né assim, eu tô passando por isso agora de novo né porque tem muita coisa que por exemplo, aqui em São Paulo eu sempre fui chamada pela galera de “A emborível” porque eu não vou embora, tipo assim “Você vai chamar a Babi pra casa, cuidado que ela não vai embora” é isso, falar, trocar ideia, beber uma cerveja, vou embora não, e aí hoje não né, eu sou uma pessoa assim que não só sou a primeira a ir embora como que em muitas vezes eu nem vou mais na sua casa porque não faz sentido para mim eu estar com aquela galera ou tomar aquela cerveja e tal e isso gera uma estranheza né porque assim pensa, a gente se reconhece como estranho para nós mesmo, você fala assim “Gente eu gostava de tal coisa e agora não gosto mais, que estranho, esquisito, não tô sabendo lidar com o que eu tô me tornando”, então se é difícil pra gente elaborar esse processo de mudança imagina para o outro né que pouco acompanha ou que acompanha pílulas, então recentemente nesse período de pandemia o que eu mais ouvi foi “Meu você está muito estranha, o que tá acontecendo? Você tá bem? Você tá esquisita”, tô mudando para uma coisa que eu não sei o que que é mas também não faz sentido eu me comportar da forma como eu estava me comportando nos últimos dois anos então eu acho que tem esse lance de se entregar mesmo para o processo, falar “Tá, tô mudando” e vamos indo né, não tem muito o que fazer, eu não sou mais de segurar esse instinto, esse impulso de transformação, se eu tô vendo que meu corpo ou meus desejos e minhas vontades estão indo para um lugar novo vambora, não vou segurar isso mais porque as vezes que eu tentei segurar eu implodi né, deixa fluir

Henrique de Moraes – E até porque muitas vezes a gente, essa mudança, na verdade essa resistência à mudança não é uma resistência do sentido de “Ah não quero ser essa pessoa”, é “Eu fico com medo de como as pessoas vão reagir à minha mudança” e isso é péssimo né se parar pra pensar, é uma coisa que está embutida na gente desde a evolução, da gente ter essa necessidade de aceitação social enfim tem tudo isso que permeia a gente, que tá dentro, tá instalado dentro da gente mas quando a gente para pra refletir de fato, não faz sentido, a maioria das vezes é meio dos outros e não de quem a gente tá se tornando de fato porque pra gente aquilo é natural, a gente tá evoluindo né, é muito estranho.

Babi Teles – Pelo menos acreditamos nisso

Henrique de Moraes – A gente tá andando, a evolução

Babi Teles – Eu realmente acredito que é uma evolução, se estaremos certos não sabemos

Henrique de Moraes – Mas de qualquer forma gera aprendizado no final das contas.

Babi Teles – Muito, é prazeroso inclusive

Henrique de Moraes – Eu queria voltar ainda na Sara porque eu queria perguntar uma coisa específica sobre ela mas você falou sobre sua experiência no Maranhão e essa coisa de você estar se sentindo presa, e aí eu li também uma matéria sua que tem uma fala aqui que você falou que de repente se viu numa vida em que você não cabia mais né, que você não tinha mais tempo para fazer esporte, pra vida pessoal enfim, não tinha tempo pra você mesma e aí que você foi para o carnaval e se deu liberdade total, e aí eu queria fazer algumas perguntas aqui assim, queria primeiro entender assim nesse momento em que você tava se sentindo privada das coisas, o que que te levou à essa privação, essa sensação pelo menos né, acho que não é só sensação, de fato você provavelmente tava privada mas como é que você, quais foram as armadilhas de certa forma assim que você não foi vendo ao longo do caminho que te deixaram nesse lugar né, que te levaram a chegar nesse lugar e também como é que foi essa experiência do carnaval, como foi você sair dessa sensação de privação pra sensação de liberdade total e que tipos de liberdade você se permitiu ter também né, porque liberdade é muito é amplo, pra Sara por exemplo ela tem outro conceito na cabeça dela

Babi Teles – É coitada, a Sara, só um parênteses nisso aí, quando eu criei coragem e falei lá no projeto que queria ir embora e assim eu acredito muito em Deus, no universo, na energia, no Cosmos enfim dêem o nome que dê eu de um modo geral uso Deus mesmo mas eu tenho sempre um feeling, um timing muito bom assim de tomar decisão, obviamente eu já passei muito emocionalmente desse timing por uma questão de teimosia, de ego talvez mas eu sempre escuto a hora que eu preciso mudar né, tô sempre muito ligado em mim mesma então quando eu tomei coragem e falei lá no projeto que queria sair, um pouquinho antes de eclodir a Primavera Árabe né então eu saí assim na linha tênue da paz pra guerra literalmente, pro vuco-vuco, eu não fui da leva que saiu evacuada pela Embaixador brasileiro mas foi quase, e quando eu tive coragem de dizer que eu não queria mais ficar, que aquela experiência já tinha dado para mim, daí eu já tinha sete amigas líbias né não era só a Sara, já tinha se passado um ano e meio, e aí eu sentei com elas e contei, falei “Gente só para vocês saberem, eu tô me movimentando pra ir embora, voltar para o Brasil”, elas ficavam assim “Mas você vai fazer o que lá?” e eu “Ah gente dançar, beber, namorar” tentei contar de uma forma como se tivesse contando pra uma criança, “de onde nascem os bebês?”, e aí eu tentando contar pra elas de um jeito sutil, pra não mostrar demais o que elas não poderiam saber naquele momento ou não era meu papel contar, e elas ficaram assim “Mas não entendi, dança aqui, não entendi” elas não conseguiam né chegar na experiência, então pra elas era aquilo sabe assim, pra elas tava tudo bom e eu falei assim “Mas não sou feliz”, aí “Mas porque? O que te falta?” pra elas a resposta era sempre casamento, “Casa que você vai ser feliz, o negócio é que mulher tem que casas e você não casou”, eu falava “Gente mas não é isso”, isso em termos de comunicação né, que eu acho que é o lance da linguagem mesmo, acho que a gente não conseguiu se entender plenamente sabe, eu nunca consegui traduzir para ela essa experiência do que que era ser livre para mim porque para elas “it is what it is”, tava tudo bem ali. Mas pra responder sua pergunta né, eu sou muito visual né então acho que eu respondo essa pergunta de como é que foi né sair dessa experiência São Paulo, Líbia e depois Maranhão é muito intenso eu saí de BH e já vivi esse tanto de coisa né, quando eu vim para São Paulo trabalhar não imaginava que em 5 anos eu viveria essa intensidade de experiência, então visualmente a sensação de estar no carnaval é tipo um animal selvagem quando ele é ferido e é resgatado e fica sendo cuidado e tá dentro da jaula, tipo assim ele sabe que estar ali é importante para ele voltar pra selva entendeu mas aí quando aquela jaula abre e ele sai correndo pra natureza é isso, carnaval para mim é essa imagem sabe, o bicho selvagem preso que ele entende que ele precisa estar ali cuidado mas na hora que ele sair ele vai para o lugar que ele tem que estar sabe, ele vai correr livre, vai correr solto, ele vai comer a comida que é para ele, ele vai se relacionar com a tribo que é dele, então carnaval foi muito esse resgate de quem eu era na essência porque eu tava muito misturada sem saber quem eu era dentro daquilo que eu tinha me tornado né porque no corporativo eu estava muito orientada, direcionada e tinha uma narrativa muito claro dos executivos na época, que era eu tinha a chance de ser a primeira diretora mulher com menos de 30 anos e quando eu ouvi aquilo eu falei “Gente mas assim, não faz o menor sentido eu ser isso”, tipo “Eu não quero ser essa pessoa, não me dá nenhum tesão em ser essa pessoa” porque eu como uma gerente ali, coordenadora independente, com um cargo de gestão ali né com a responsabilidade que eu tinha, já não valia a pena, o dinheiro que eu ganhava eu não conseguia gastar ou gastava da pior maneira possível né no sentido de auto destruição, da compensação de bar, de viagem enfim, de tudo muito intenso, tudo muito anestésico, perdi casamento de amigas minhas né, perdi aniversários, perdi momentos de convívio com pessoas que a experiência não pagava entendeu, era um trade-off que não se compensava então ouvir essa orientação que assim, obviamente tem uma questão do ego de valorização, de reconhecimento que eu ficava “Olha como eu sou blábláblá” mas quando eu deitava pra dormir eu falava “Cara essa vida não é para mim assim, eu não sei o que que eu quero fazer, eu não sei o que faz sentido para mim mas meu próximo passo não é isso”, então quando eu tive coragem, e foi uma negociação muito difícil, eu demorei seis meses para conseguir sair do Maranhão não só porque a própria empresa tentou de fato né entender como é que eu queria e nisso eu preciso reconhecê-los muito em parte, “Tá mas o que você quer? A gente tá no mundo inteiro”, “Fala a experiência que te agrada, a gente vai tentar, a gente não quer te perder, o que que faz sentido, busca entender, tira licença”, eles foram muito legais nesse sentido assim, muito humanos mesmo assim eles estavam realmente preocupados com o que poderia me fazer feliz dentro da organização que tinha muitas portas, mas eu não tinha essa resposta, o que eu conseguia dizer pra eles era que não era aquilo, e o que era pior para eles era que eu não estava pedindo pra sair para ir para outro lugar né, não tinha nem aquela coisa do “Quando você vai ganhar para fazer o que?”, era tipo “Cara eu quero um tempo, eu quero me reencontrar, eu quero descobrir dentro disso que eu me tornei o que que faz sentido para mim, eu não sei” então eles foram muito assim “Tá vai lá descobrir e se do que você descobrir a gente fizer sentido, a porta está sempre aberta” e sempre esteve de fato, aí não só em termos de relação, fui madrinha de casamento, não só relações pessoais que eu construí lá para a vida inteira mas como trabalho mesmo né, é uma rede que ainda me traz prosperidade até hoje de algum sentido. Então quando eu cheguei no carnaval eu vivi o que eu queria fazer, com quem eu queria estar e foi no Rio de Janeiro, Rio de Janeiro para mim naquele momento era natureza, por incrível que pareça, porque o Carnaval te permite se fantasiar, te permite você ser quem você não é sem compromisso, eu posso ser uma fada hoje, uma borboleta mãe e tá tudo bem então te permite muita experimentação, te permite muita leveza, te permite muita criatividade e muita gente boa né, uma energia, uma vibe de praia com bloco com música com gente feliz, eu falei “Cara é isso, eu não sei o que eu vou fazer mas a experiência que eu quero viver é gente criativa com experimentação, com alegria, com leveza e se tiver música melhor ainda” então foi meio que essa janela sabe que se abriu assim sem muita clareza mas com um cheiro sabe, uma perspectiva de ter mais ou menos por aqui que eu quero ir.

Henrique de Moraes – Entendi. Muito legal, engraçado que eu nunca tinha parado para analisar dessa maneira né como de fato o Carnaval te permite ser várias coisas diferentes, experimentar e cada dia ser um né porque na vida a gente assim precisa, acho que as pessoas exigem isso da gente, o mundo exige que a gente seja consistente né e às vezes a gente não é consistente, ás vezes não né, normalmente, o normal acho que é as pessoas não serem dentro delas e elas vestem uma máscara, curioso mesmo e você assim, eu sei que você hoje ajuda pessoas a fazerem essa transição de carreira e não sei se na época que você tava passando por isso tudo lá, nesses seis meses que você passou se perguntando, tentando se entender se você já tinha alguma alguma ferramenta ou não, se você descobriu a ferramente na época mas que tipo de perguntas que uma pessoa que está passando por isso por exemplo, ela se faz né, Quais são as ferramentas que você recomenda por exemplo, eu sei que você, by the way só fazendo um parênteses aqui, baixem os e-books que estão lá no site da Paxe porque são muito legais assim, eu baixei e eu tô parando para fazer porque é um exercício de autoconhecimento e tem até uma fala em um deles que achei tão legal, eu separei aqui que é que quando eles têm um problema né a gente vai lá e investiga e aí você fala assim “Ah porque quando temos um problema de cunho pessoal não paramos para analisar e nos entender né” tipo a gente se conhecer melhor “Afinal, sabemos quem somos?” e é uma pergunta muito profunda porque eu acho que as pessoas estão cada vez menos parando para ter tempo de se perguntar sabe porque elas estão fazendo o que elas estão fazendo, para onde elas estão indo, tá todo mundo no piloto automático sabe então assim, voltando aqui pra perguntar né porque eu acabei indo mais longe mas, uma pessoa que tá passando né por esse momento de se perguntar e de transição de carreira que eu sei que é uma coisa comum e é muito difícil né, especialmente para quem já tá com a carreira tão encaminhada como você tava, acho que é mais difícil ainda né porque você tem que abrir mão de uma coisa que parece que as pessoas ficam inclusive ao seu redor falando assim “Mas você vai abrir mão disso?” né tipo, para essas pessoas quais ferramentas você recomenda assim, quais as perguntas que elas devem se fazer pra conseguir passar por isso?

Babi Teles – Henrique só um parêntese aqui falando então dos espinhos nas flores, quando eu tomei a decisão de sair dessa empresa que fiquei seis meses para sair em negociação, e tentativa e reflexões e “Será que eu tô fazendo a coisa certa?” até o meu “Não aguento mais, não aguento mais, não é licença eu quero sair” eu liguei para os meus pais né eu sempre graças à Deus tive essa troca muito franca com os meus pais assim eu sempre pude muito contar com eles mesmo que eles discordassem das minhas decisões, mas na dúvida até a Virginia Woolf né tem uma frase muito boa que é “Algumas pessoas procuram os pais, outros padres e eu procuro os meus amigos”, eu sempre tive essa tríade né, eu sempre procurei meus pais, a espiritualidade e os meus amigos mais verdadeiros né que são pessoas né, fora a espiritualidade que você não tem retorno tão claro mas pais e amigos verdadeiros são pessoas que vão realmente te dizer aquilo que você não gostaria de ouvir mas que é importante para você ouvir, então eu sempre tive esse privilégio de ter esses pais incríveis que mesmo duros conseguiam orientar com amor então quando eu tomei essa decisão como todas as outras, de vir para São Paulo, ir pra Líbia, foi sempre muito conversado com eles, cara meu pai ficou decepcionadíssimo, a primeira coisa que ele falou foi assim, a primeira coisa que ele me falou no telefone foi “E o seu INSS?”, aí eu falei “O quê? Gente eu estou falando que não estou aguentando, a sua preocupação é INSS?” e eu não conseguia mais dialogar, fiquei puta e falei “Cara não é isso que a gente tem que conversar entendeu, que INSS, tô zero preocupada” e assim não é que eu sou louca entendeu de sair desgovernada, irresponsável é que assim, pensar daí a 20, 30 anos, que lógica é essa? Eu já não era feliz com a lógica do fim de semana né, de me acabar de segunda a sexta e aí sábado e domingo eu compenso, isso já não me satisfazia, férias uma vez por ano muito menos, INSS, eu vou resgatar entendeu? Então assim, essas amarras que teoricamente né traziam essa narrativa de uma pseudo segurança para você permanecer nunca funcionaram comigo, nunca assim e talvez eu sempre tenha sido mais rebelde de alguma forma nisso, de “Cara não é por isso que eu vou ficar, entendeu”?, então o lance de ter pessoas quem você pode genuinamente buscar saber aquilo que você não sabe sobre si mesmo né, que é isso de novo né como a Sara assim “Gente o que vocês estão vendo que eu não tô vendo?” e escuta, não necessariamente você vai seguir como eu não segui né, pai desculpa se você tá preocupado com o INSS sabe, obrigada mas não, mas eu acho importante ouvir, acho importante ponderar porque na época né se a minha resposta foi raiva hoje eu entendo que ele tava preocupado com o meu futuro então que bom que eu também me preocupava com meu futuro mas de outras formas, então é de novo esse lance da linguagem né, de empatia, entender a premissa do outro para o que ele tá falando e você decidir sobre o que faz sentido para você naquele momento então em termos de ferramentas, cara sempre autoconhecimento e autoconhecimento para mim ele funciona de diversas formas, primeiro é auto-reflexão e auto-observação, anotando muito né então assim a escrita para mim é essa ferramenta mais poderosa porque eu nunca escrevi de maneira consciente né e isso se tornou consciente inclusive depois do blog que virou livro que é como eu acho hoje importante a gente se resgatar no nosso passado, de “Nossa que interessante que a Babi em 2000 pensava isso”, né, que aos 15 anos pensava isso, depois 21 isso, aos 35 ou ano passado né, pra gente não se perder nessa velocidade do tempo que essa aceleração acho que tá trazendo pra gente essa piora da pausa por essa ditadura da produtividade e essa teimosia em relação à agora, agora, agora, agora, tá gente mas o agora ele não é um resultado em si mesmo né, ele é resultado de um passado, seja esse passado longe ou não, então escrever para mim é um exercício de pausa.

Henrique de Moraes – Desculpa te interromper mas só pra entender assim e aprofundar porque eu gosto desses detalhes, você tem algum exercício de escrita específico ou você simplesmente escreve?

Babi Teles – Eu tentei por algum tempo o morning pages né, da Julia Cameron, escrevi por um bom tempo mas eu vi que eu comecei a entrar no mecânico, no automático e comecei a me sabotar no processo, do tipo cumprir protocolo. E aí quando eu vi que eu tava me autoenganando nisso eu deixei isso, que é esse ponto né, porque quando escrever para mim vira um exercício como outro qualquer que ou seja, um exercício que não me conecta de verdade comigo mesma, aí eu vou para outra prática de auto-reflexão que é a contemplação e aqui em São Paulo eu uso duas formas muito práticas de fazer isso no meu dia a dia, se eu não tenho muito tempo no dia é uma contemplação meditativa mesmo, colocar um som e desligar, me desconectar e se eu tenho no mínimo uma hora eu pego minha bicicleta e vou pro Ibira e dentro do Ibirapuera, do parque, eu descobri um lugar cara que ninguém vai assim, é bizarro, quando você chega e tá muito cheio e você fala “Ai que preguiça de gente, quero ficar sozinha, quero que o mundo acabe agora” mas eu descobri um lugar que não vai ninguém assim então eu paro minha bike, estendo uma canga, quando tá sol, dia de céu azul eu me perco ali, olhando o lago e o verde o céu então assim a auto-reflexão para mim, auto-observação são ferramentas muito importantes mas eu acho que você tem que encontrar aquelas práticas que vão te fazer se conectar consigo mesmo para você descobrir a sua inteireza naquele momento né, o que que eu tenho de bom, o que eu tenho de ruim, o que eu preciso melhorar, o que que tá acontecendo assim, é um processo de quando o mar vira lago né, deixa a água acalmar, entende o reflexo que você tá se provocando aquele momento né, o que tá confuso, o que tá conturbado, o que tá fora do lugar, e eu não sei fazer isso em pausa. E pode ser uma pausa prática como escrever e pode ser uma prática ociosa né nesse sentido contemplativo, mas para transição de um modo geral desde 2012 quando eu entrei de paraquedas no mundo do empreendedorismo eu descobri essa técnica que eu uso muito de uma maneira mais ampla e eu uso ela sempre comigo e pros outros também como uma tríade, que é você sempre, e o sempre vai de cada um né pode ser a cada ano, a cada 2 anos, a cada tempo que você tiver inquieto, é você se responder naquele momento “Quem você é?”, “No que você acredita?” e “Quem você conhece?”, então assim “quem eu sou?” é isso, você fala “Meu sei lá quem eu sou” e é isso, “Quem é você Henrique?”, “Quem sou eu Babi?” mas calma, no que eu acredito hoje, o que que faz sentido para mim né e isso me ajuda muito em priorizar, as pessoas falam muito em minimalismo mas eu sou mais do essencialismo, o que que é essencial para mim nesse momento? Então se eu acredito que isso é essencial eu vou conseguir me priorizar nesse exercício e isso vai me levar então a quem eu conheço que vai me ajudar nessa trajetória e entender essa trajetória como de fato um processo, uma transição de médio e longo prazo e não como uma ruptura, de que amanhã eu vou sair né porque a gente também vive nessa narrativa do on demand e do just in time, cara isso não é bom né, tipo a vida não é um botão que aperta e chega, a nossa trajetória não é um Waze que vai te falar “Siga esse caminho e você chegou ao seu destino”, não é assim né então eu sempre entendendo que a gente tá mudando o tempo inteiro e que eu acredito que essa mudança é positiva e evolutiva, é isso “Quem eu sou agora?”, “O que é essencial pra mim agora?”, “O que eu acredito que eu deva fazer agora?”, é preciso estabelecer limites, começar a falar não e me ancorar em pessoas que vão ser rede de apoio pra esse movimento que eu acho que eu quero porque também se não for eu também preciso ter essa rede de apoio e dizer “Gente estou um caco, errei, tô mal e preciso recomeçar, e vamos de novo” então acho que essa tríade sempre ajuda porque te dá uma leveza de que as decisões também são transitórias né e que nada é definitivo.

Henrique de Moraes – Cara, queria só reforçar eu acho todos esses pontos que você falou na verdade assim, acho que são muito relevantes e todos esses pontos que você levantou são pontos que acho que mais me preocupam na relação com as pessoas hoje sabe, vou falar primeiro assim sobre essa questão da auto-reflexão sabe, da escrita ou de você sair e se desligar enfim, que eu não tenho como reforçar o suficiente assim porque eu acho tão importante e que é muito difícil e as pessoas podem estar caindo nessa armadilha hoje em dia assim como eu caio porque assim, mesmo você sabendo não significa que você não vai cair nas armadilhas né porque são armadilha, o nome está aí para isso então a gente acaba se vendo de vez em quando num lugar onde você está tentando evitar mas essa coisa da reflexão por exemplo eu tenho hábito de sair também e desligar, ficar longe do celular, não olhar tecnologia, especialmente coisas de mensagem, essas coisas para ter esse tempo de pensar e tenho essa mania de escrever também, e eu comecei também com o morning pages da Julia Cameron, de “O Caminho do Artista” e isso me fez tão bem que eu acho que quando eu comecei a fazer esses exercícios, tanto esse quanto o diário de 5 minutos, que são alguns dos exercícios que eu faço, eu comecei a perceber o quanto eu tava vivendo no piloto automático e aí eu comecei a tentar botar mais horas de reflexão no meu dia porque eu percebi o quanto isso era relevante e o que acontece, quando vem a pandemia e especialmente se você tá vivendo o lockdown, o trabalho ele te engole né porque o que acontece é que você acorda e você fala assim “Eu tenho essa 1 hora aqui, mas eu vou pegar uma hora que eu tô em casa, na frente do computador, pra refletir?” sabe, porque mal ou bem quando você tá na rua, você tá ali andando e você fala “Vou botar uma música, não vou olhar pro celular agora”, você acaba refletindo, você tem momentos e às vezes são momentos bobos né, de trânsito pro trabalho ou de buscar alguma coisa enfim, ir no mercado, a gente se dá essa liberdade de colocar um fone, colocar uma música e você acaba sem querer refletindo sabe, você não percebe que você tá fazendo isso mas você tá, você tá tipo ali pensando, você tá andando, olhando pro mar, olhando para os prédios, você tá apreciando, você tem essa coisa de mudar um pouco a frequência, e quando você tá em casa acontece muito disso, eu me vejo por exemplo caindo muito nessa armadilha, de eu tô em casa e vou tirar meia hora pra trabalhar mas eu falo “Cara aquele e-mail tá me esperando”, “Tô cheio de trabalho atrasado” e o que você faz é, você para, você não tem mais esses horários porque você começa a preencher tudo no trabalho porque você acha que não tá sendo produtivo, e vem essa questão da ditadura da produtividade que você falou, que acho que já tava vindo com força mas acho que ficou pior na pandemia e não tem os limites certos sabe, tipo da hora que você sai do trabalho pra hora que você entra, isso tudo causa uma ansiedade nas pessoas que eu acho que elas não percebem né, elas vão simplesmente entrando nesse espiral ali e quando elas vêem elas estão ansiosas, nervosas, deprimidas enfim, cheias de problemas e elas às vezes não conseguem se auto diagnosticar, que por exemplo eu consigo fazer, pelo menos hoje aqui eu tenho as ferramentas pra isso né então eu queria reforçar isso porque é tão importante você parar um horário do seu dia sabe e simplesmente tirar tudo da cabeça, se desconectar de fato assim, desconectar de verdade, não é desconectar olhando no Instagram, porque você não vai estar desconectado de verdade, é desconectar de ficar sem tecnologia e olhar para o nada, olhar pela janela sei lá e ficar parado ali porque uma hora a coisa começa a vir né, você vai tendo insights e a coisa vai levando, que é inclusive uma das coisas que eu amo no morning pages, que me dá essa sensação de que no início parece meio idiota, me sinto retardado, quase que “Querido diário”

Babi Teles – A gente se sente meio infantil no início né

Henrique de Moraes – Quando você vai chegando no final das 3 páginas você fala assim “Caraca o que aconteceu?”, eu falo isso pra minha esposa direto, parece que eu fui no banheiro pela cabeça, do alívio que me dá, a sensação de leveza, você fala assim “Caraca, parece que eu joguei lixo que tava dentro da minha cabeça fora” e eu acho que as pessoas precisam se preocupar mais com isso e ficarem mais atentas à esse ponto. E outra questão que você trouxe que é interessante, as pessoas com quem você conversa nesses momentos difíceis que é isso, primeiro buscar pessoas que falem a verdade por mais que doa porque o feedback pra ele ser relevante tem que ter uma intenção positiva, não necessariamente precisa ser grosseiro, precisa ter uma intenção de melhorar e também ter consciência de que feedbacks são percepções de outras pessoas, então busca o feedback, ouve as pessoas mas também não ache que só porque a pessoa falou que é verdade. Eu lembro que uma vez eu tava ouvindo a Sara Blakely que é fundadora da Spanx, ela é tipo a primeira mulher bilionária dos Estados Unidos, alguma coisa nesse sentido aí, essas métricas que as pessoas botam como métricas de sucesso mas que é relevante né porque ela realmente conseguiu fazer muita coisa, e ela fala que no início quando ela foi falar com os pais dela, ela trabalhou durante muito tempo fazendo a parada em paralelo, fazendo o negócio dela em paralelo, mas teve uma hora que ela teve que decidir porque já não tava mais dando tempo para ela fazer as duas coisas e ela foi falar com os pais e os pais dela falaram assim “Mas como você vai se sustentar, o que você vai fazer e fazer tudo mais?” e ela fala assim “Cara aquilo bateu muito forte em mim porque eu fui falar com eles buscando apoio e quando eles não me deram apoio eu quase desisti né” e ela falou assim “Mas o que eu percebi foi que assim, do ponto de vista dos pais eles estavam fazendo aquilo por cuidado, com amor, mas eles não estavam dentro de mim para sentir o que eu tava sentindo e pra entender o que eu tava entendendo, e eu tive que tomar a decisão sozinha infelizmente, que foi a melhor decisão da minha vida” mas é isso, você tem que entender de onde tá surgindo aquele feedback pra levar em consideração e respeitar, mas aprender também a tomar suas próprias decisões.

Babi Teles – Mas tem uma coisa que eu compreendi, pelo menos que eu trago pra mim hoje pra não, principalmente pra não gerar esse conflito desnecessário nesse exemplo do meu pai, do INSS, de ficar batendo boca né, de cada um tentando fazer valer a sua premissa, tem uma coisa que eu assumi pra mim nesses casos que é, acho que assim o apoio ele não necessariamente é consentimento, você pode muito me apoiar discordando do caminho que eu tô entendeu?

Henrique de Moraes – Completamente relevante

Babi Teles – É tipo meio ambíguo mas é isso assim pra mim hoje.

Henrique de Moraes – Verdade, bem relevante.

Babi Teles – E se é esse apoio genuíno mesmo, vamos supor assim que você me apoiou discordando da minha decisão e minha decisão não me levou à bons resultados vamos dizer assim, de novo tá tudo bem eu voltar e falar “Você tava certo, tá tudo bem” e também não tem aquela coisa de “Eu te avisei, te falei” entendeu, não precisa ser nesse tom né então quem dera se fôssemos assim né mas na prática não é tão simples quanto parece, parece simples mas não é tão simples quanto parece.

Henrique de Moraes – É engraçado que teve uma vez, vou contar uma história rápida aqui vou tentar ser rápido, eu cheguei em casa, saí de madrugada sabendo que eu tava cansado por insistência né de amigos e eu saí e eu fiquei o tempo inteiro querendo voltar e a galera tipo “Não, fica, fica, fica” e meus pais também preocupados “Você falou que tá cansado e que não queria sair, não é melhor você ficar?” enfim, acabou que na volta eu dormi e bati de carro e enfim, tive que ligar pros meus pais porque na época eu tava num período de transição porque eu tinha saído de morar sozinho pra morar com eles, então foi um período péssimo, tava voltando pra casa dos meus pais e eu liguei pro seguro e aí cheguei lá com o carro eu liguei para o seguro e aí cheguei lá com o carro, o reboque, pra você ter noção eu tava tão cansado até o reboque chegar eu fiquei dormindo e quando o reboque me levou pra casa eu cheguei dormindo, eu fui acordado pelos meus pais em casa de tão cansado que eu tava. Pra quê né?

Babi Teles – Pra quê né Henrique

Henrique de Moraes – E quando eu cheguei em casa foi muito engraçado isso porque assim, não é o comum dos meus pais mas eles falaram assim “Cara o que aconteceu” e eu falei, na hora eu não lembro o que falei, acho que inventei uma desculpa do tipo “Aconteceu tal coisa, um carro veio e blábláblá”, e meus pais olharam no fundo dos meus olhos e eles sabiam que eu tava mentindo e eles falaram assim “Não beleza, vai descansar” e cara eles não ficaram apontando dedo e cara aquilo foi tão importante pra mim

Babi Teles – Tipo “Eu te falei pra não sair”

Henrique de Moraes – Eles não ficaram pegando no meu pé dizendo “Eu te avisei” porque eles viram que eu tava tão envergonhado, acho que eu tava igual a um cachorro com rabo entre as pernas e com aquela cara que cachorro faz, eu cheguei muito envergonhado em casa, acho que eles perceberam isso e eu achei isso tão, eles tiveram uma sensibilidade tão grande que eu pra falar a verdade nem imaginava que fossem ter porque acho que eu não teria também de virar e falar assim “Não tudo bem, vai descansar” e eles nunca falaram nada, nunca mais tocaram no assunto então isso foi uma lição que ficou pra mim muito forte, de não ficar essa coisa “Eu te avisei”, não apontar o dedo porque às vezes a pessoa quando ela vem pra você ela vem querendo mais ser acolhida e se você fizer isso você vai afastar ela, enfim. Queria puxar um outro assunto aqui, que tem a ver com tudo o que a gente falou na verdade, que eu fiquei muito feliz quando vi o nome da sua empresa, quando descobri o que significava, caraca tô falando demais mas só vou contar uma história rápida, essa semana eu tava com algumas coisas que eu queria fazer e minha filha dormiu, e quarentena em casa com filho né, foi no carnaval então assim, eu trabalho no fuso do Brasil só que o Brasil tava de férias né, todo mundo de folga então eu tinha uma hora

Babi Teles – Defina esse “todo mundo” aí hein.

Henrique de Moraes – Inclusive eu trabalhei também mas enfim

Babi Teles – Tô brincando

Henrique de Moraes – Eu me dei algumas horas ali e minha filha dormiu e eu tinha 1 hora assim, que é mais ou menos o horário que ela dorme e eu falei “Cara o que eu vou fazer?”, e aí eu vim, eu tenho uma bateria aqui em cima que eu nunca toco porque não dá tempo, aí eu falei “Vou tocar bateria”, aí eu toquei bateria durante 5 minutos e comecei a me sentir mal porque eu queria ler, aí eu desci para ler e me senti mal porque não tava trabalhando, enfim eu não fiz nada 100% porque todas as vezes que eu escolhia uma coisa eu me sentia mal pela outra, e o nome da empresa você pode explicar melhor né mas veio do livro, foi inspirado no livro “O Paradoxo da Escolha” e cara acho que esse é um assunto que deveria estar mais em pauta assim em todas as conversas porque mais uma vez, é mais uma armadilha que a gente tem caído sem perceber né, mais uma coisa que tem causado muita ansiedade nas pessoas e elas nem percebem, nem conseguem identificar, e aí eu queria que você falasse um pouco do porque você escolheu, é lógico deu esse nome, da onde veio essa vontade e assim se você puder, do seu ponto de vista eu queria entender assim em qual parte da nossa vida, mas não é parte enfim, em qual área, dimensão da vida que você acha que isso tem sido mais relevante porque assim, permeia tudo né mas com essa hiperconectividade, hiper comodidade, FOMO, todas essas coisas, essas palavrinhas que estão surgindo, eu acho que tem algumas áreas em que isso tá ficando mais latente, e eu queria entender do seu ponto de vista onde está mais latente essa questão

Babi Teles – Depois da experiência na 99jobs eu comecei a estudar muito propósito, sentido da vida, o que é essa tal, quase um pagode, o que que é essa tal da felicidade e como é que vive isso, onde encontra, onde vive, onde mora, Globo Repórter e eu comecei a mergulhar profundamente nisso tudo, foi um processo muito difícil sair da 99jobs, de “Cara o que que eu vou fazer?”, e a Paxe que nasce em 2017 ela é meio que toda essa jornada junto, que eu estava no Google, realmente eu entrei no Google e comecei: “ser feliz no trabalho”, “amo o que eu faço”, “como encontrar sentido”, “como ganhar dinheiro sendo feliz”, comecei a colocar essas tagwords no Google e só saía casal hypeness, “larga tudo e vende côco na praia”, “seja nômade digital”, eu falava assim “Gente não é isso”, porque eu fiz um sabático e inclusive meu sabático é intelectual ou seja, eu me preocupei em fazer sentido linear para o meu currículo e não rolou, não é isso, e aí eu tive essa epifania, é uma epifania que eu abri o PowerPoint, humanas né não trabalho com Excel, abri o PowerPoint e comecei a desenhar telas, cara o que é ajudar as pessoas a encontrar seu propósito, o que elas precisam saber? Então a Paxe foi essa epifania de dentre tantas possibilidades de escolhas e partir muito de mim mesma de posso ser gerente, posso ser executiva em empresa grande, posso fazer mestrado fora, posso dentre tantas possibilidades, qual é o meu caminho, como que eu sei essa resposta, como eu experimento essas possibilidades? E aí dentre várias leituras que eu fiz na época eu li “O Paradoxo da Escolha” do Schwartz e aquilo me bateu como resposta, falei assim “Gente é isso, a gente precisa reduzir as possibilidades e o critério principal da redução volta de novo com que é essencial para mim, como faz sentido para mim, como que conversa com quem eu sou”, então ajudar as pessoas em seus movimentos, aí eu falo eu não sou auto-placement, eu não sou headhunter, eu não vou te garantir um emprego, o que eu posso e acho que a minha missão ao ajudar pessoas é de despertar pro seu potencial de execução dentro daquilo que você acha que você deve fazer porque quando eu fiz essa trajetória toda, teve o carnaval e teve a 99jobs, a única certeza que eu tive todas as experimentações é que o que fazia sentido para mim independentemente do como era um ambiente obviamente formado por outras pessoas que me permitissem ser quem eu sou porque eu descobri né com essa abundância de possibilidades que nós privilegiados temos, esse poder de escolha que a gente tem como privilegiado, a nossa tomada de decisão como a gente foi ensinado, educado e aculturado num contexto racional né, muito pautado pela questão financeira e material, e que eu tinha experimentado de certa forma e não tinha me reconhecido nessa forma de me expressar, eu falei “Cara acho que a chave para uma vida equilibrada, pra uma vida integrada é você se permitir ser quem você é”, porque para mim o que eu descobri foi que é custoso demais a gente se tornar quem a gente não é, então essa coisa do play the game né, do colocar a máscara das personas, cara isso tem um custo emocional irreversível então dentre as possibilidades de escolha a minha orientação é: opte por aquilo que tende a te aproximar de quem você é ou de quem você quer ser, e não te afastar daquilo porque se você se afastar da sua essência vai ser custoso emocionalmente e a sensação que eu tive quando eu não priorizei escuta foi de que eu até poderia ser bem-sucedida né pra esses padrões mundanos mas para mim era uma morte espiritual entendeu, tipo não tava reverberando dentro, eu dava entrevista, capa de revista e eu falei “Gente mas dentro eu tô morta, não é verdade, eu não tô manifestando o que eu acredito, não acho que é desse jeito, então “O Paradoxo da Escolha” é muito uma lição de coragem, e coragem como uma tomada de decisão autêntica né, ancorada no seus valores, seus princípios, eu acho que você consegue silenciar esses estímulos externos né, o smartphone, o barulho da buzina que incomoda, a ambulância que passa, esses estressores quando você consegue ser fiel a si mesmo e a gente foi criado eu acho num contexto de que faça tudo para não trair o outro e tipo assim mas eu estou me traindo ao não trair o outro, às vezes, mas tudo bem eu me trair, tudo bem eu me machucar, tudo bem eu me anular, tudo bem eu me reprimir? Não, pra mim não tudo bem, assim não mais né e uma coisa bem prática que eu fiz que eu acho que tem muito a ver como o que você trouxe né, dessa urgência, dessa velocidade, desse afogamento no seco que a gente tá né, super ansioso de um tanto de coisa pra fazer e deveria estar fazendo né, essa expressão deveria, eu tenho que, cara o que eu consegui, e não consegui por completo ainda, tô no processo de aprendizagem e acho que a terapia foi muito importante pra isso, o silenciar isso tudo começando por duas práticas assim que eu tenho feito há dois anos, uma é dormir cedo porque esse lance de “Não tenho tempo, não dá” eu falo “Como é que fulano consegue?” tipo assim não existem super-heróis, não são gênios entendeu, então eu repactuei comigo mesma a janela do tempo, então você fala assim “Como que usa o paradoxo da escolha, em que área?” eu começaria pelo tempo. Então assim, se o tempo tem 24 horas pra todo mundo, o que eu conseguir para aproveitar o tempo e fazer tudo aquilo que eu quero fazer que faz sentido para minha inteireza de ser, e aí obviamente eu tenho um misto de pessoal com profissional, dormir cedo, e como é que eu durmo cedo? Cara, 8 horas da noite eu não acesso telas então assim, tem mais de um ano e se bobear quase dois, um ano e meio com certeza, que eu não assino Netflix. E as pessoas “Ah mas tá por fora” assim eu prefiro de verdade hoje entrar num clube de leitura e conversar sobre livros que as pessoas estão lendo do que ficar nessa pira de você ter que estar sempre, porque é isso né cara, as plataformas sejam sociais ou não, elas te deixam sempre nessa coisa de você estar perdendo alguma coisa né, você sempre tem coisa pra ver, mas isso faz sentido para mim? Hoje faz muito mais sentido para mim ver “Soul” da Disney, e eu pago um e vejo um avulso do que ficar assinando e porque eu tô assinando eu tenho que ver porque eu tô pagando e eu tenho que consumir né, então eu há dois anos faço isso, 8 horas da noite eu tento não ver mais nada de tela, no máximo um vôlei porque eu amo, sou apaixonada por vôlei feminino, assisto tipo  São José dos Pinhais x Brasília. torço mas como entretenimento e cara, depois de 8 da noite silêncio, leitura, uma conversa com amigos presencialmente, não me chame pra Zoom depois de 8 horas da noite, não vou participar, desejo tudo de bom no seu aniversário mas não conte comigo nesse momento porque esse silenciamento te leva para um sono de qualidade e aí você acorda 6 horas da manhã, 5:30 da manhã e o dia estende então assim é isso sabe, dá 9 horas da manhã Henrique, se bobear eu já fui no Ibira, já andei de bike, já tomei meu sol e vamos para o dia, e hora do almoço é hora do almoço, então escolher no cotidiano dentro desses paradoxos são escolhas que te aproximam de quem que você quer se tornar e que te reforçam na sua autenticidade. É muito difícil mas é um caminho próspero eu acho, possível.

Henrique de Moraes – Sim. Deu até um frio na barriga aqui agora porque cara desde que eu me mudei pra cá que eu vivo ainda no fuso do Brasil né porque a minha empresa tá no Brasil, embora eu esteja começando a abrir oportunidades aqui mas cheguei no meio de uma pandemia então dificulta um pouco as coisas, que eu tenho trabalhado até 21h, 22h e isso é muito ruim assim porque eu durmo com a cabeça no trabalho todo dia e acordo já acelerado sabe, no início tentei botar umas medidas mas não tô conseguindo, tô falhando miseravelmente porque mal ou bem o horário aí no Brasil ainda tá, as pessoas estão trabalhando ainda né então dá 19h por exemplo as pessoas ainda estão no ritmo de trabalho, 18h que seja, aqui já são 21h então é bem difícil assim.

Babi Teles – E você não consegue começar meio dia né, pra acompanhar

Henrique de Moraes – Então tem sido bem difícil pra mim assim lidar com essa diferença e tenho sentido bastante.

Babi Teles – Mas aí que eu acho que entra o lance da autocompaixão mesmo sabe, da gente dar tempo para o nosso corpo adaptar o que ele consegue fazer e de alguma forma, não sei qual que é o seu caso mas é o lance da negociação mesmo né, quando a Brené Brown fala de vulnerabilidade, apesar de estarem esvaziando essa palavra como propósito no meu ponto de vista, essa coisa de “Cara, não dou conta até aqui, eu tenho limite, eu tenho outras coisas” e como é que a gente se ajuda de fato sabe, como é que dá para gente chegar no meio do caminho e ir testando essas coisas né, acho que a gente se permite pouco essa experimentação elástica de “Não tá dando certo aqui, agora não dá vamos mexer, vamos tentar de novo” a gente essa coisa do mindset fixo de “Não, eu estabeleci um planejamento e ele tem que seguir” não ele não tem que seguir, não necessariamente né.

Henrique de Moraes – Totalmente. A gente já falou sobre essa questão da gente ser, nós somos bichos sociáveis né e a gente depende dessa aprovação dos outros enfim, tudo que a gente já conversou sobre isso, não vou repetir mas eu vejo e acho que hoje em dia, especialmente da posição que eu tô, onde eu encontrei depois de assim, namorei muito na minha vida, tive várias namoradas, encontrei uma pessoa com quem eu consigo olhar e falar assim “Cara de fato eu quero passar o resto da minha vida com ela”, hoje eu olhando tenho essa percepção, tenho essa percepção há 4 anos que a gente tá junto e isso é ótimo porque eu nunca tive isso antes mas em compensação eu percebi que quando eu não tinha isso eu forçava essa sensação por aceitação social, por estar no momento, esse tipo de coisa e aí como eu falei né estando nessa posição em que hoje eu encontrei uma pessoa e que a gente não fazia questão de nada do aceitável socialmente, de ter todas essas cerimônias sabe porque a gente só queria estar junto, e aí isso te liberta um pouco né porque você fala assim “Cara a gente só quer ficar junto, foda-se casamento, foda-se todo o resto, só quer ficar aqui” e que é o melhor, é a parte boa e quando você compara, você contrasta isso com histórias que você tem né, de amigos seus, amigas e pessoas enfim, que você começa a perceber que a maioria das decisões são pautadas nisso, em você fazer parte, estar no momento certo porque a sociedade exige isso porque enfim, existe uma pressão e cara, aí quando você enxerga que existem vários casamentos que são tão superficiais nesse sentido eu acho que é a hora em que você tem que se libertar disso porque não faz sentido você achar que perdeu ou não o momento sabe porque não tem que ter regra, a regra ela vem de uma coisa tão antiga, essa regra especialmente né, de quando vai ter filho, quando vai ter isso, não tem eu conheço pessoas que subverteram todas essas regras e se conheceram mais velhos e casaram, alguns tiveram filhos beirando os 40 e poucos, 50 anos e conheço casais que tiveram filhos muitos novos e não foi pra frente, eu tenho uma filha de um outro relacionamento e cara, eu fui morar junto exatamente por pressão social e foi horrível, eu não tava preparado para aquilo então acho que é difícil, não é fácil você lidar com a pressão e isso que você falou né das amigas falando e todo mundo fazendo esse tipo de pergunta porque você começa a se questionar várias coisas mas cara, não tem como você se colocar, se encaixar numa caixinha.

Babi Teles – E definitivamente não sou uma pessoa de caixinhas, nunca coube em nenhuma.

Henrique de Moraes – Pois é, então eu acho que você tem uma história tão bonita e que você tem que se orgulhar e defender ela até o fim, independentemente de quem tiver e as pessoas tem que respeitar e admirar também né. Acho que da mesma matéria que eu já puxei um trecho aqui, falando né sobre você ter resolvido conhecer os Estados Unidos depois você fez o curso e você resolveu viajar de ônibus sozinha então assim, como que foi essa experiência num contexto geral, quais foram as experiências talvez mais valiosas que você tirou e qual dica você dá pra de repente uma mulher que queria, acho que viajar sozinho já é uma coisa diferente né, pra homem e pra mulher, mas pra mulher às vezes é mais difícil porque tem toda a questão da insegurança

Babi Teles – Ah eu acho, eu amo, isso eu acho vida. Cara sabe aquela pessoa que ama ir no cinema sozinha? É tipo isso assim mas potencializada à esfera mil sabe, bom pra quem curte né, tem que gostar de si mesmo bastante e se gostar na inteireza né, “Sou chata”, óbvio todo mundo tem uma sombra, mas é um aprendizado bem massa, eu adoro me ser um laboratório.

Henrique de Moraes – Mas como é que foi essa viagem específica lá nos Estados Unidos?

Babi Teles – Pois é eu fiz o curso, Babson fica naquele conglomerado de universidades ali no nordeste americano perto de Harvard, perto de Boston, a cidadezinha se chama Wellesley, dá 1 hora de Boston e quando eu fui, muito frio né, muito frio, acabou o curso acho que Maio, era um pouco antes do fim do primeiro semestre de 2012 e eu falei “Meu, já que estou aqui pra refletir, vamos refletir viajando” e eu não conhecia os Estados Unidos, eu sempre tive muito preconceito com os Estados Unidos, muito, muito, não tinha vontade nenhuma, eu sempre olhei os Estados Unidos do tipo assim “Cara eu vou quando eu estiver velha sabe, deixa eu ir pras Filipinas, Ásia toda, deixa eu ir para lugares que…” é porque assim quando eu tomo decisão de viagem eu sempre penso né, fora obviamente o custo dela mas eu sempre penso qual experiência eu quero ter né, qual aprendizado eu quero ter, o que eu quero vivenciar, de um modo geral sempre me pauto pela conexão com a natureza, pra mim isso é muito importante, que é o que eu sinto falta em São Paulo, de água e natureza mas eu sempre penso assim “Onde eu só poderia ir na idade que eu tô?”, então como eu gosto de natureza, gosto de caminhar, nadar, gosto de fazer esportes ao ar livre, eu preciso respeitar o meu corpo nesse momento dele então Estados Unidos pra mim era essa coisa de “Quando eu ficar velha eu vou” e aí como já me surpreendi muito no curso eu falei “Cara não vou pra lugar nenhum, eu vou ficar nos Estados Unidos e vou viver os Estados Unidos”, e eu queria viver os Estados Unidos no olhar do que eu tinha visto no curso de empresas nascendo com propósito de resolver problemas humanos né, que eram as tais das startups, então eu fiz um mapeamento de lugares que estavam com aquela coisa das smart cities, com as cidades sustentáveis, com mobilidade urbana né, queria ver como o negócio funcionava mas eu falei “Bom eu também preciso ver onde que tem gente perto que eu conheço, porque se eu precisar de um help”, então a rota que eu fiz foi sair do extremo nordeste dos Estados Unidos né, Boston, descer a costa leste inteira, chegar em Miami, de Miami eu subo pelo meio porque eu queria muito ver Savannah, aquela coisa meio countryside mesmo dos Estados Unidos, tinha uma amiga minha, uma das minhas melhores amigas que na época tava fazendo mestrado em Buffalo que é divisa com o Canadá, é bem pra cima, divisa mesmo com o Canadá, bem frio, bem extremo norte e eu falei “Cara quando chegar lá eu vejo o que eu faço”, mas então dentre descer a costa leste inteira até o extremo sul Miami e subir pelo meio até o extremo norte, eu falei “Bom eu preciso de uns checkpoints, não de encontrar pessoas mas de poder acionar pessoas se precisasse, e aí quando eu botei isso no mapa, lá nos Estados Unidos tem um negócio do Greyhound né, e na época em 2012 o dólar tava baratíssimo né, hoje tá 6 pilas, acho que peguei o dólar a R$ 2,67, tava rica e aí tinha o negócio das passagens da Greyhound de US$ 1, de ônibus aí eu falei “Ah gente eu vou gastar comendo, bebendo e tomando banho, vou gastar com aéreo, táxi?”, porque vamos lembrar que não existia Uber nem WhatsApp em 2012, então era SMS, comprei um chip e fui no Greyhound e assim foi, fui parando e assim tiveram surpresas muito incríveis do tipo, parei em Virginia Beach, era uma parada estratégica pra dormir, então bookei um hotel, parei na rodoviária, peguei um táxi e aí cuidados né, sempre viajar de dia e sempre poltronas perto da porta ou perto do motorista porque tem uma coisa assim né, eu sou filha de pai baiano e a família inteira do meu pai da Bahia é do interior do interior da Bahia, bem, apesar de ser um romance né do sertão mineiro mas bem “Vidas Secas”, então as poucas vezes que eu fui pra Bahia de ônibus eu sempre tive muito cuidado, sepre tive muito medo do assédio né, de homem botar a mão, te assediar e tal, sempre tive esse pânico e isso infelizmente piorou muito na Líbia né, na Líbia eu fui muito assediada, nunca encostaram em mim mas o lance do olhar né como a gente tava falando, como a gente não tinha o tato, o assédio pelo olhar para mim hoje eu não posso dizer mas ele talvez pra mim hoje seja tão ruim quanto um toque porque é muito desconfortável, você fica nua mesmo é muito ruim, muito desagradável, é nojento. Então eu tinha esse medo, essa trava da experiência da Líbia de homens se aproximarem sabe e é isso não precisa encostar em mim, é o jeito que o homem olha, então tinha muito esse pânico assim, então sempre viajava de dia, fazia questão de sair do meu destino e chegar no meu destino à luz do dia sempre com o cuidado de ver a estrada antes e aí é louco né cara, não tinha WhatsApp, não tinha Uber, não tinha Google Maps então era mão, post-it, caneta e sempre com pessoas que sabiam da minha saída e da minha chegada, que estivessem próximos né então sempre busquei saber amigos gringos ou não que estavam por ali para me auxiliar. Mas as surpresas boas né, dito desses cuidados, Virginia Beach era uma parada para descansar para eu chegar em Miami, não lembro mais quantas horas de um para outro mas é longo, sei lá vou chutar aqui mas é tipo umas 27 horas talvez, um BH-  Porto Seguro, mas é longe porque Virginia Beach está bem no meio e Miami bem no final, e “Cara preciso ficar dois dias e descansar”, gente fiquei uma semana em Virginia Beach, falei “Que cidade massa, que delícia! Orla, praia, amei” então tinha essas coisas, e aí o lance né Henrique do que eu deveria estar fazendo, então ali essa viagem me ensinou muito sobre me ouvir, então teve cidades que planejei ficar 4, 5 dias e fiquei 1 e teve cidades que planejei ficar 1 ou 2 e fiquei 10 né, Miami foi essa grata surpresa porque como eu tinha preconceito com os Estados Unidos, o meu preconceito com Miami era o pior dos Estados Unidos, porque é isso né Miami eu tinha um super preconceito que era só shopping e compras e eu zero na pegada né, toda desapegada da vida, era uma mala pequena e uma mochila e a mesma roupa sempre, então achei que ia ser uma coisa meio deslumbre e cara, Everglades que é o Pantanal deles, Key West que é Cancún, quer dizer Caribe, a Little Havana que é realmente uma pequena Cuba então assim cara é experimentar, viver a cultura do lugar sabe e aí enfim subi pelo meio, pelo countryside mesmo e aí quando eu cheguei em Buffalo pra formatura da minha amiga no MBA ela falou assim “Antes de ir pro Brasil eu tenho tanto tempo (da entrega do MBA até a passagem pro Brasil), mas como eu vou conseguir entregar antes eu tenho tempo pra viajar, vamos viajar?” aí eu falei “Eu não rodei a Costa Oeste”, “Quê? Bora” e aí foi “Se Beber Não Case”, a gente pegou um vôo de Buffalo e foi até Vegas, encontramos duas amigas e nós quatro fizemos a Costa Oeste inteira de carro né, de Vegas até São Francisco, Califórnia e aí né, impublicáveis né, aí terminou com chave de ouro mas assim, apesar de eu ter voltado muito grata da viagem e eu sempre viajei sozinha, gosto muito de viajar sozinha, hoje eu não sei se eu faria algumas coisas principalmente depois das Filipinas né então acho que o mundo ainda é muito cruel com as mulheres, acho que você tem perrengues logísticos junto ou separado, se eu for contar essa viagem nos Estados Unidos sob essa ótica, outra ótica com as meninas né as quatro, cara vários perrengues mas o lance de comer, dormir, acordar, se movimentar, sentir frio, sentir calor, sentir medo, sozinha é muito difícil e eu acho que mulher é muito exposta cara, eu não recomendo não. Então é isso eu sempre sou muito grata porque cara não aconteceu porque não tinha que acontecer, não tava no meu porque fui muito exposta, eu acho que eu não fui inconsequente, eu acho que sempre tive esse cuidado de me cuidar mesmo assim, de me proteger mas não aconteceu porque não aconteceu.

Henrique de Moraes – Você falou da história das Filipinas, qual história é essa?

Babi Teles – Ah porque nas Filipinas foi quando eu tive, foi a partir das Filipinas que eu tive a epifania da Paxe, porque eu tava já cansada, de novo né “Não é isso que eu quero, não é isso que eu quero meu Deus do céu”, tinha férias vencidas e falei “Meu então eu vou” e já tava com essa vontade né, nessa busca de viagem eu queria natureza e Ásia porque enfim, a Líbia me mostrou muito sobre meditação, sobre espiritualidade né, a crença deles, a religião deles e eu tava me sentindo muito desconectada disso tudo nessa vibe de trabalhar demais, workaholic, sair, essa vida muito pra fora né, eu tava muito voltada pra fora e eu falei “Bom eu não vou conseguir tomar a decisão se eu não voltar pra dentro”, entrão precisava silenciar e me conectar com a natureza então escolhi a Ásia por uma questão de praia que eu gosto muito e escolhi Filipinas, a minha primeira escolha era Butão mas conversando com um amigo meu que tinha ido para o Butão e olhando o processo de ir para o Butão, além de ser muito complexo do ponto de vista de visto e autorização, era caríssimo, caríssimo, só o processo de você ser autorizado a entrar no país, eu não lembro mas era muitos mil dólares e você tinha uma taxa na época de US$ 750 por dia, como se fosse uma taxa de autorização para você usar o país e poluir o país porque o Butão que tem o Felicidade Interna Bruta né eles não tem PIB, tem FIB, e eu falei “Cara não tenho essa grana e também não pagaria sei la quantos mil reais em 12 dias, não fazia sentido. Então no meio do caminho aí foi Filipinas, fui sozinha e eu não recomendo porque é um país também muito machista apesar de ser um país católico boa parte é muçulmana também então isso tem um traço cultural forte mas assim pra você ter noção da aversão deles ao corpo, ao que é a simbologia do sexual, as pessoas entram no mar de roupa, o que eu só tinha visto na Líbia, na Líbia eu vi uma mulher entrar no mar né porque Trípoli é uma cidade litorânea, e ela tava de burca,  na Líbia é igual, as pessoas entram de roupa, de calça, de blusa, e eu queria ficar livre, biquíni, nudes quase, só não faço topless porque não fico confortável mas assim, cheguei na praia minha filha é só canga então assim, não tem bebida alcoólica direito em qualquer lugar, é uma coisa meio, é muito privado sabe então você tem uma natureza exuberante, uma energia mágica só que a relação ela não é de liberdade e aí assim, tem essa coisa de as pessoas me referenciarem como uma mulher bonita então é isso, o assédio, chamar atenção, sou muito alta né tenho 1,74m então eu chamo muita atenção e aí fica aquela coisa de, as pessoas falam isso no trabalho “Cara a gente sabe quando você chegou, é uma energia, uma presença, aquele mulherão chegou” ai isso é muito cansativo porque você não quer ser percebida, eu quero só tomar sol, só tomar um drink, só curtir a baladinha mas não é, e como eu vou pra esses extremos né, nos Estados Unidos tem muita gente branca e na Ásia muita gente diferente, eu chamo a atenção, na Líbia as pessoas achavam que eu era turca por exemplo, então é isso não acho o mundo acolhedor pra mulher e principalmente nesse contexto que você quer né por meio de viagem lazer e prazer, péssima combinação.

Henrique de Moraes – Tem uma série que eu recomendo demais assim para todo mundo, pra mim é a melhor série que tem hoje disponível, tá na Netflix infelizmente mas dá pra ver num streaming da vida, chama Master of None, não sei se já ouviu falar

Babi Teles – Acho que não olha aí tá vendo, tô fora do rolê

Henrique de Moraes – Eu assisto muito pouco hoje em dia também mas essa série já tem alguns anos na verdade, tem anos que eles não lançam nada novo, o que me deixa chateado mas é uma séria feita por um humorista muito famoso dos Estados Unidos chamado Aziz Ansari e ele pega situações da vida e coloca nos episódios, então tem duas temporadas só, a primeira é bem diferente da segunda porque a primeira foi inspirada num stand up comedy dele né e ele adaptou um roteiro pra criar episódios e depois a segunda tem uma historinha por trás mas cara eu recomendo bastante porque primeiro ele é muito engraçado e as histórias fazem a gente refletir muito assim porque são histórias que parecem tão bobas e quando você para você pensa “Caraca isso é verdade, isso é verdade, isso é verdade” em todos os episódios tem um soco no estômago por assim dizer né nesse sentido e um dos episódios da segunda temporada, é muito sutil assim por isso que eu falo que é muito legal a forma como ele coloca porque você não percebe exatamente até uma hora fazer sentido né, vai mostrando eles num bar, todo mundo os amigos e tudo mais e depois mostra ele e o amigo dele voltando pra casa e uma mulher que estava no bar voltando pra casa, ambos andando na mesma cidade, no mesmo lugar e um cara que estava dando em cima dela no bar começa a ir atrás dela na rua e ela fica desesperada né, rola aquele desespero, ela andando e olhando pra trás, acelerando, tudo escuro e eles assim zoando tudo, na rua se divertindo, “Ah nada vai acontecer” sabe essa sensação? E cara fica tão claro que dá até vergonha de ser homem, a sensação é essa assim porque você fala “Cara”, você não percebe o que o assédio pode estar assim, em detalhes como você falou sabe, no olhar

Babi Teles – E Henrique isso é uma coisa muito louca né porque eu me considero uma comunicadora né e eu uso a comunicação de diversas formas, seja facilitando grupos, dando mentorias, palestras enfim, acho que meu talento é comunicação independentemente da forma como ela é utilizada mas isso é uma coisa que eu tenho muita, é como se eu me sentisse responsável por dizer sabe porque a gente tem essa narrativa audiovisual muito poética da viagem, você tem desde aquela narrativa “Into the Wild (O Lado Selvagem)” que teoricamente termina de maneira trágica mas é muito poética né e você tem uma trilha maravilhosa, e você tem até todos, os Caminhos de Compostela né então assim é lindo, a gente se emociona, a gente se inspira, a gente na verdade quer conhecer, pelo menos eu sou muito assim né, tem muitos lugares do mundo que eu conheci ou que tenho desejo de conhecer por causa dessas narrativas audiovisuais mas eu acho às vezes muito irresponsável porque todo filme que eu vejo ligado a viagens, principalmente que tem essa mensagem de uma jornada de autoconhecimento, beleza mostra os perrengues, a pessoa amputa um pé ou mostra um trágico físico né mas não mostra esse sexismo que a gente vive e que do meu ponto de vista é isso eu não precisei congelar, não precisei cair, afogar, ser mordida por tubarão, você não precisa ser violentado fisicamente, pra mim a responsabilidade de você contar essa história de descobertas por viagem e ter esse cuidado pro feminino é que assim, a gente sofre pelo invisível mesmo sabe, é uma violência psíquica, é isso as pessoas podem te olhar e isso pode me ferir profundamente e isso vai atrapalhar minha viagem para sempre, eu não vou conseguir fluir naquela experiência. Quando você conversa com yogis ou aprendizes de yoga é outra narrativa, o próprio budismo sabe assim a dor que você passa nas peregrinações até chegar nos templos não são dores de alma no ponto de vista de você estar lidando consigo mesmo, mas é você não ser acolhida, integrada naquele ambiente, você não é bem-quisto ali na grande maioria das vezes, você é um ser não gato né, persona non grata então acho isso muito sério cara, viagem e empreendedorismo eu parei de romantizar, falei “Gente para, vamos parar, tá irresponsável demais” então todo mundo fala assim “Ai Babi tive uma ideia, quero empreender, o que você acha?” eu dou a real, o empreendedorismo de palco eu acho que é tóxico, acho que é perigoso, eu acho que é irresponsável e os casais hype e nômades digitais também, não é assim “Pega a mochila e vai, vai ser feliz, desbrava o mundo” cara não assim, definitivamente, é igual um psicólogo que pode te arruinar numa sessão de 1 hora é isso, uma pequena cena pode transformar sua vida pra sempre assim então não sei, eu ainda sou meio raivosa sabe pra essas narrativas assim, não gosto do que eu sinto não, não acho nobre mas eu gosto de parametrizar sabe, relativizar um pouco as coisas pra realidade

Henrique de Moraes – Sim acho que é importante, e mais importante do que nunca eu acho porque você falou de audiovisual, você falou de empreendedorismo também que tem toda essa narrativa mas se você parar pra pensar na dinâmica que a gente vive hoje nas redes sociais onde todo mundo é foda o tempo inteiro e você só compartilha vitórias e você falou até uma coisa que eu acho muito importante, você falou que as pessoas estão esvaziando a palavra vulnerabilidade e eu concordo com isso porque as pessoas falam de vulnerabilidade para se promover mas sem praticar sabe, eu vejo isso acontecendo nas redes sociais, é muito comum as pessoas falarem “Não porque você tem que ser vulnerável”, mas cadê suas derrotas? Cadê você sendo de fato verdadeiro com o que tá acontecendo com seu dia, tipo está se sentindo mal, tirou uma foto pra se sentir bem e ganhar like depois sabe, então acho que no final das contas muitos dos significados são esvaziados porque as pessoas querem mostrar o tempo inteiro elas sendo essas coisas sem de fato ser né, virou ali só um lugar para você exibir as coisas que você sabe e não as coisas que você pratica.

Babi Teles – É, e isso é uma coisa que eu também aprendi ao longo do tempo e quando eu participo de algum processo de recrutamento e seleção, seja como consultoria contratada para alguma vaga específica, seja participando de alguma banca eu sempre pergunto para as pessoas o que que não deu certo sabe porque eu acho que o lance de você falhar é muito importante para mim né, na minha perspectiva do ponto de vista de resiliência emocional porque como a vida tá difícil assim, ela sempre foi mas parece que ela tá mais e como eu trabalho muito com jovens né em programas de estágio e trainee, muito provavelmente na geração atual, nessa Geração Z é no ambiente de trabalho que essas pessoas vão ter a primeira dor real né, de “não”, de limite, de porrada mesmo né vamos dizer assim, porque eu de novo tô falando de uma classe elitista aqui é A e B, infelizmente tô falando de programa de trainee e estágio, tô falando de jovens privilegiados na grande maioria dos casos, então sempre pergunto e por isso que eu também sou crítica à esses vieses de recrutamento e seleção porque eu falava “Cara prefiro mil vezes um jovem aqui do Capão né, do Brasil real, do Brasil profundo do que necessariamente jovens que o desafio deles é isso sabe, “ah um dia o carro quebrou indo pra fazenda”. Não tô desmerecendo essa experiência mas assim, o que você entendeu dela e como é que você transformou essa experiência em algo entendeu, em termos de musculatura emocional mesmo então eu sempre faço essa pergunta e para empresa quando eu trabalho, aí quando eu falo líderes, para as grandes organizações eu trabalho muito inovação e design thinking né e eu sempre falo “Gente vamos fazer o que o empreendedorismo chama de “Fuck Up Night?” ou seja, você tem encontro de empreendedores que se reúnem para falar os erros, “Cara quebrei”, “Fui enganado”, “Fui roubado”, “Fui arrogante”, “Não ouvi”, “Fui imaturo”, o que a gente foi que não foi legal? E o que a gente aprendeu? E como é que a gente não repete? E como é que a gente se coloca nesse lugar de humildade de novo em reconhecer que a gente não foi bem mas que a gente está aberto pra melhorar e como é que a gente troca isso né, então esses shows de palco, de premiações que as grandes empresas têm, de esconder um pouco a cozinha né cara, fala o contrário, você tem que premiar o colaborador que errou tentando fazer acerto, que experimentou, que foi usado, que abriu a boca numa reunião, teve uma conversa difícil e assim sem desrespeitar, quebrou o padrão da hierarquia, eu acho que a gente precisa mais dessas pessoas né, pelo menos de ouvi-las mais do que aquelas que só “deram certo” e são muito seguras de si, eu desconfio um pouco dessas pessoas que deram certo demais né nessa, nessa premissa do que a gente tá falando que seria o certo.

Henrique de Moraes – E é curioso porque eu acho que às vezes a gente também romantiza as derrotas então assim falando por mim, vou colocar no meu caso porque acho que é melhor né, eu sou viciado em ler biografias, todo mundo sabe que eu sei a história de todos os empreendedores, artistas, eu leio e ouço tudo e chegou uma hora que eu percebi que eu tava romantizando a derrota sabe, falando assim “Ah não mas tá tranquilo, posso errar porque tal pessoa também errou” e não é isso, é assim você tem que tentar acertar e a questão é você não se sentir mal por ter errado né, não ficar se martirizando por ter errado e aí uma coisa que eu fiz pra tentar de certa forma tangibilizar isso né, colocar isso de uma forma mais material pra mim, eu sentia isso de verdade, foi há pouco tempo inclusive, eu tô um projeto difícil em que eu sei que eu vou receber muitas negativa, vai ter muito não enfim, vou ser ignorado por algumas pessoas porque eu preciso falar com pessoas que estão muito acima do que as que eu costumo falar hoje em dia né vamos colocar assim, hierarquia tradicional de empresas e o que eu fiz? “Cara vou tomar um monte de não, isso pode me desanimar e eu também não posso botar isso como normal, eu tô buscando o sim mas como que eu faço pra fazer com que isso se torne concreto pra mim né?” e eu peguei um cara que eu sou maior fã do mundo dele eu acho, falo em quase todos os episódios do podcast, é o Tim Ferriss que é um cara cheio de merdas, cheio de erros, meio machista, tem umas coisas assim mas que o podcast dele, o conteúdo dele me fez abrir os olhos pra muitas coisas, e eu botei um quadro com a quantidade de vezes que o livro dele foi negado né e eu comecei a falar “Beleza então eu tenho aqui as 30 vezes que ele foi negado, vou ter essa chance também, de ser 30 vezes negado, mas o meu foco tem que ser conseguir antes dos 5”, então é uma forma de eu tangibilizar, de saber que eu tenho liberdade para errar umas 30 vezes pra não me sentir mal, errar não né, tomar essas negativas umas 30 vezes, 30 oportunidades e não me sentir mal mas também não pode ser desculpa para eu “Ah beleza tô tranquilo, 5 pessoas negaram” talvez eu tenha que ajustar alguma coisa, 5 pessoas me disseram não, talvez tenha alguma coisa que eu tenha que ajudar aqui então assim encontrar esse equilíbrio é muito difícil, de você não romantizada derrota e também não fazer com que ela te paralise né.

Babi Teles – É isso, acho que o exercício é como é que a gente descobre o limite entre persistência e teimosia né.

Henrique de Moraes – Exatamente, exatamente. Babi deixa eu te fazer uma pergunta, a gente falou de vários assuntos e a gente trouxe referências, de vez em quando a gente falava de referências de livros, a gente falou inclusive do livro do Schwartz, do “O Paradoxo da Escolha”, quais outros livros que te influenciaram, se você pudesse elencar de 1 a 3 quais foram os livros que mais te impactaram, e não precisa ser especificamente de negócios ou de coisas profissionais, pode ser pessoalmente também porque acho que livros que fazem a gente crescer pessoalmente também ajudam carreira e vice-versa, uma coisa ajuda na outra

Babi Teles – Nossa cara são muitos mas eu acho que fazendo esse recorte pelos meus divisores de águas, na Líbia 2009 eu li o “Comer, Rezar, Amar” da Elizabeth Gilbert e esse foi um livro muito transformador para mim porque uma parte nele lá, quando ela conta a história dela né, ela acorda e fala “Não quero mais estar casada com meu marido” enfim, ela entra num processo profundo de autoquestionamento e ela entende né, falando em viajar, ela entende que viajar sozinha vai trazer as respostas que ela busca encontrar e ela faz as peregrinações na Itália, na Índia e esqueci o outro, fugiu aqui, “Comer, Rezar, Amar”, na Indonésia, Bali onde ela conhece o Felipe. E aí assim, qual o contexto que eu tava? Ela faz isso e qual o contexto que eu tava? Na Líbia perguntando “what the hell i was doing there”, tipo eu falei “Comer, rezar, amar. Comida horrível” não falando sobre isso mas cara, isso é outra coisa né Henrique, comida japonesa no Brasil é maravilhosa, comida árabe no Brasil? Esfirra? Nossa senhora, vai comer uma esfirra? Até Habib’s é bom lá, comparado com o que tem lá, então enfim eu falei “Cara o que é esse ‘Comer, Rezar, Amar’? Qual que é essa busca?” mas tem uma parte especificamente do livro que foi junto com o meu aprendizado né que assim, quando eu encontrei a Sara e falei “Essa pessoa pode me ensinar, e ela pode me trazer uma transformação pessoal que eu quero viver, eu quero experimentar, olhar para o mundo na perspectiva dessa pessoa” foi nesse momento que eu li “Comer, Rezar, Amar” que tem uma parte em que a Elizabeth Gilbert fala que quando você tem coragem para abandonar tudo que é confortável, você abre um caminho pra encontrar pessoas que estão nessa vida como professores então que se você tem a coragem de abandonar tudo que é confortável e enxergar nas pessoas que atravessam esse caminho ensino e aprendizagem, você consegue encarar as verdades sobre si mesmo e a partir disso viver uma realidade real, uma realidade verdadeira. Então cara essa parte do livro para mim ela sempre me emociona muito assim, é um livro que eu releio vários trechos de quando eu acho que eu tô me perdendo de mim mesma, quando eu acho que eu tô pra fora demais, porque eu falo “O que eu preciso deixar pra trás, o que tá familiar ou confortável demais que tá me impedindo de ir para esse encontro com outras pessoas que vão me melhorar no meu caminho, e o que é essa realidade que eu tô negando viver, qual é essa verdade que eu tô postergando encarar? Então “Comer Rezar Amar” pra Líbia é um livro né, essa coisa do autoquestionamento e de buscar a resposta dentro. O que eu acho interessante é isso, vai pra essa coisa de “Vou viajar” ou “Vou namorar e vou encontrar”, a busca do outro, pra fora e não é, cara não é, não é.

Henrique de Moraes – Você já assistiu ou ouviu alguma entrevista dela?

Babi Teles – Da Elizabeth Gilbert? Várias, teve uma época que assim, ela e Brené Brown pra mim era tipo on repeat, as duas e a Oprah sempre foram mulheres que eu voltava muito assim, hoje eu te confesso que não acompanho mais, tem coisas que já não batem tanto.

Henrique de Moraes – É porque agora você falando eu lembro de ter escutado uma entrevista dela e que muitas das coisas que você falou assim, dessa busca por ser mais fiel consigo mesma né, de ser mais honesta com você mesma tem a ver com o que eu ouvi dela sabe, por isso eu resolvi perguntar.

Babi Teles – Então esse é um livro, mas outros não vou me delongar neles, google it, em 2012 nesse sabático, nessa viagem pelos Estados Unidos eu li “Confissões de santo Agostinho” e foi quando eu descobri o Roman Krznaric, que é o fundador da The School of Life de Londres, um dos co-founders, ele é australiano mas radicado na Inglaterra, então eu li “Confissões de santo Agostinho” e li “Como encontrar o trabalho da sua vida” do Roman. Cara ali no sabático foi quando eu comecei, a partir desses livros, a ter clareza no híbrido do humano/espiritual. “Confissões de Santo Agostinho”, Santo Agostinho foi um homem pecador vamos dizer assim, um homem mundano e ele se encontra nessa espiritualidade e o Roman com “Como encontrar o trabalho da sua vida” ele fala muito do propósito no sentido dessas percepções né, da intuição, de você entender os seus talentos, seus dons, experiências, pessoas, então foram livros que me abriram pra estudar mesmo propósito, o sentido da vida, Jung, psicologia, filosofia, antropologia, antroposofia enfim, foram livros que me abriram pra uma espiritualidade filosófica e ano passado com a pandemia, quando eu decidi de novo né, que foi quando eu silenciei meus aplicativos, deletei vários e fui pra essa coisa de “Eu não sou o meu trabalho e o meu trabalho não tem prioridade para além dos outros setores da minha vida, ele é parte da minha vida” e foi quando eu comecei a dormir cedo para acordar cedo e viver uma vida faz que faz mais sentido, essa virada de chave prática me aconteceu na leitura de 3, 2 da Conceição Evaristo que é uma autora 60+ e negra, mulher, mineira, que foi o “Olhos d’água” e o “Ponciá Vicêncio” e eu reli “Mulheres Que Correm Com Os Lobos” da Clarissa Estés, eu tinha lido “Mulheres Que Correm Com Os Lobos” em 2007, 2008 então cara ano passado a minha leitura foi de mulheres negras, a Conceição Evaristo foram esses dois, Djamila Ribeiro também, e mulheres no caso da Clarissa mulheres bruxas, no lance do sagrado feminino. E ter lido mulher negra e mulheres que entendem o feminino como sagrado fora do arquétipo que a gente foi ensinado a ter desse menino frágil, cara me transformou para todo o sempre no sentido de está pouco eu ter compaixão só com mulheres porque quando eu faço um recorte de mulheres negras da periferia sei lá, lésbica, é um outro lugar então isso me deu um gás de criar muitas coisas que acolham de fato outras pessoas e estourar um pouco da minha bolha entendeu. Mas assim, esses livros me voltam na coisa da Elizabeth Gilbert lá atrás entendeu, tipo assim eu vi que eu tava entrando para o confortável, familiar demais e eu falei “Cara essas mulheres furaram minha bolha de novo e agora eu preciso ir para um próximo movimento de incluir outras pessoas nos meus processos de ajuda e troca” entendeu, que é o feminino negro assim de uma certa forma e esse feminino sagrado, então cara é isso, são esses todos, falei uns cinco livros né

Henrique de Moraes – É bom que você trouxe porque essa autora eu não conhecia.

Babi Teles – A Conceição Evaristo? Nossa Henrique vou te falar que “Olhos d’água” é de ler chorando, muito triste, é difícil demais você ler, você ver que ainda hoje no século XXI as mulheres negras estão passando o que elas estão passando, pra mim é inaceitável, virou luta, inaceitável, não dá pra dormir.

Henrique de Moraes – Vou buscar, é importante cara, tão importante a gente se colocar nessa posição desconfortável né. Vou fazer aqui as duas últimas perguntas e te liberar porque eu já tô há muito tempo

Babi Teles – Tô preocupada com essa edição gente

Henrique de Moraes – Eu falo que as pessoas perguntam assim, “Porque você não faz o episódio com 1 hora?”, eu falei “Pra filtrar pessoas assim”, mas é porque de certa forma todo conteúdo ficou engessado, ficou igual porque todo mundo tem que pegar e ter limite de 50 minutos, 45 minutos de conteúdo, 1 hora, meia hora, não cara esse aqui é o conteúdo tem que ser e vai ser o tamanho que tiver que ser.

Babi Teles – Você sabe que nesse negócio de gostar de escrever eu participei de uma aceleradora com a startup, com a Paxe e um dos ativos que a gente entregava eram curadorias, artigos, vídeos e tal. Cara o primeiro feedback que eu levei na aceleradora foi “Você escreve muito porque você é muito profunda, as pessoas não vão acompanhar seu raciocínio, na internet tem que escrever pouco”, aí eu falei “Então não consigo, não sei fazer isso, isso não quero aprender”, ser rasa e botar um texto pra viralizar e não agregar não sei, esse aprendizado não quero, difícil.

Henrique de Moraes – É complexo mesmo e eu acho que existe essa tendência a colocar tudo em caixinhas, do tipo “Essa é a regra, é desse jeito que funciona” muito porque também as próprias redes sociais são ferramentas que não são ferramentas do ponto de vista que elas estão lá esperando, como o martelo esperando pra ser usado, mas ela necessita que você use ela de certa maneira né e aí acaba que as pessoas criam essas regras falando “Não porque pra você conseguir fazer no Instagram tem que ser isso, isso e isso” e hoje em dia o que eu tenho buscado mais é onde eu me encaixo, onde o meu tipo de conteúdo se encaixa e onde as pessoas buscam, podcast é um deles então assim, que eu sei que é uma coisa que eu gosto, eu ouço podcast de 2h, 2h30, lógico que não consigo ouvir todo dia, às vezes vou ouvir pedaços mas se eles estão me acrescentando eu vou querer terminar, então não me preocupo tanto mais em me encaixar “Ah preciso ficar dentro de 1h”, não, se estiver rolando e fluindo eu não vou limitar porque vou limitar meu aprendizado também porque eu tô aqui pra aprender. Mas vamos lá, eu tô mais preocupado com você cansada e sem almoçar então vamos lá, duas últimas perguntas. Pra você o que é ser bem sucedida?

Babi Teles – Cara é engraçado porque agora enquanto você tava falando, isso que você falou “eu não vou me encaixar”, pra mim é isso, pra mim ser bem sucedido é a gente ser aquilo que a gente veio pra ser. Tem um psicólogo junguiano eu acho, ele se chama James Hillman, cara eu sempre uso a natureza assim né tipo ou fauna ou flora, acho que isso nos apequena mas nos colocando do nosso tamanho, e ele fala que um carvalho por exemplo, ele tá na semente do carvalho pra se tornar um carvalho e dependendo do contexto que essa semente for colocada o que vai acontecer é que esse carvalho vai nascer como carvalho mas ele vai se atrofiar, então ele não vai ser um jatobá ou uma mangueira, mas ele também não vai ser um carvalho no potencial que ele tem para ser um carvalho, então eu acho que ser bem sucedido quando eu falo que é a gente ser o que a gente nasceu para ser, o não se encaixar é ser autêntico né porque é isso cara, eu acho que a gente é original, você é uma semente que eu não sou assim e espero que floresçamos como seres humanos, que é o ponto que eu acho que deveria nos conectar. Mas você é original e eu sou original e por que que a gente tem que ser cópia? Qual é a referência de que o carvalho é mais ou menos importante que um jatobá ou uma mangueira? Então eu acho que ser bem sucedido é de novo, ser fiel a gente mesmo e a gente conseguir se pautar né naquela coisa do Guimarães Rosa lá que, correr embrulha, esquenta esfria e desinquieta e cara, é nisso tudo essa coragem de ser quem a gente veio pra ser e não, porque aí de novo, é custoso a gente não ser quem a gente não é, então para mim não faz mais sentido a gente ter esse dispêndio emocional em ser cópia sendo que é tão mais fluido né a gente nascer, crescer, amadurecer e florescer dentro do nosso potencial né, ser vigoroso, ser potência e não ser uma coisa híbrida no meio do caminho, cópia atrofiada. Então acho que ser bem sucedido é florescer no que você veio para nascer.

Henrique de Moraes – Eu acho que volta, acaba voltando pro início da conversa né, onde você tem que olhar mais para dentro, parar de olhar para fora.

Babi Teles – Ainda não descobri outro caminho não viu, é difícil demais mas não vejo outra forma não.

Henrique de Moraes – E por último então, você já falou sobre isso já há um tempo atrás mas eu vou fazer a pergunta de qualquer jeito porque não sei se a resposta é exatamente a que você deu naquela hora né, mas se você pudesse falar com seu eu de 10, 15 anos atrás o que você falaria?

Babi Teles – Nossa cara, agora me veio, eu lembrei do que eu falei mas eu já mudei de ideia. Não, eu mantenho né o que eu falei que é assim, cuida de abrir um outro caminho pra se cruzar lá na frente, que é o lance né, no meu caso que a minha jornada foi muito pautada pelo trabalho, na verdade não é o trabalho em sim né, quando a gente fala em trabalho a gente pensa em remuneração mas assim, minha vida foi muito pautada em decisões por busca de sentido e meu caminho então foi muito pautado por me encontrar nessa minha manifestação por meio de trabalho então sim eu diria “Abre uma estrada paralela aí, pessoal para se encontrar lá na frente” mas na verdade o que eu me diria mesmo, dentro dessa metáfora com a natureza é que a gente precisa, eu me diria assim “Aguarda o amadurecimento para colher”, não tem atalhos não acho que a vida tem atalhos, acho que está confundindo a coisa do faça rápido né, da produtividade, da agilidade, o exponencial é matemática, a gente não é número, a gente não é uma combinação previsível, o nosso processo é biológico então eu me diria o que a lagarta sabe assim, tipo a lagarta não vira borboleta por um milagre, a lagarta vira uma borboleta por um processo então o que eu me diria há 10, 15 anos atrás é “Não fuja dos seus processos porque o devagar é importante demais para a gente florescer por inteiro”, acho que eu me diria isso aí.

Henrique de Moraes – Muito bom, esse meu podcast é minha segunda terapia.

Babi Teles – Então somos dois que fizemos hoje de novo.

Henrique de Moraes – Babi onde que as pessoas podem te encontrar? Qual o melhor local para elas te encontrarem e a Paxe também?

Babi Teles – Pois é, eu como não sou uma pessoa de rede social no que as redes sociais se propõem hoje né, eu sei que o Instagram é importante, eu entendo a relevância dele mas não é uma mídia que conversa com a minha autenticidade. Eu tenho tentado melhorar isso mas eu me manifesto melhor no Linkedin porque a minha manifestação está mais em texto mesmo, então se as pessoas gostam ou se interessaram pela minha forma de ver o mundo eu acho que elas vão encontrar mais de mim nessa autenticidade no Linkedin, mas se elas quiserem me conhecer também tomando uma cerveja e dançando um samba aí elas podem me acessar no Instagram, em ambos é Babi Teles

Henrique de Moraes – Fechado Babi, obrigado, pra mim pelo meno foi super construtivo, aprendizados profundos e importantes, não foi à toa que a gente ficou aqui umas 2h e pouca

Babi Teles – Pois é eu falo muito e são assuntos que me entusiasmam bastante, então ficaria horas aqui conversando.

Henrique de Moraes – Eu também, posso encerrar aqui e continuar conversando até… Muito bom, obrigado de verdade pelo seu tempo, pela generosidade e por ter sido tão generosa no sentido de aberta mesmo né, de mostrar as suas verdades que eu acho que às vezes eu sinto falta desse tipo de troca sabe em que a pessoa não tá ali em cima da máscara do que ela quer parecer sabe, de como ela quer que as pessoas enxerguem ela e sim tipo “Cara eu sou assim”, sabe tipo assim “Se você quer me aceita desse jeito, problema é seu e vida que segue”, obrigado viu?

Babi Teles – Honestidade né, acho que a gente precisa de menos hipocrisia e mais honestidade, mas obrigada valeu demais, prazerzão, adorei.

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