Alexandre Kassin é produtor musical, cantor, compositor e multi-instrumentista.  quando o assunto é produzir álbuns, ele é um dos maiores nomes do Brasil e já trabalhou com artistas, como: Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto, Tim Maia, Los Hermanos, Vanessa da Mata, Mallu Magalhães, Erasmo Carlos, Dado Villa-Lobos, Marcelo Jeneci e a lista continua…

além disso, Kassin tem 3 discos solo. o último deles, Relax, tem a música que marcou o início da wee! a música dá nome ao álbum (Relax) e eu recomendo muito que vocês busquem pelo clipe, que é uma das coisas mais sensacionais que eu já vi! é só procurar por Kassin + Relax no YouTube. hoje em dia, toda vez que a gente atinge uma meta ou fecha um projeto legal, essa é a música obrigatória que a agência toda precisa se levar e dançar em comemoração.

no bate-papo falamos sobre as histórias engraçadas que rolam nos estúdios, sobre sua experiência trabalhando na Globo, o mercado de música em tempos de “the good enough media” e muito mais.

PESSOAS CITADAS
  • Mayrton Bahia
  • Sólon do Valle
  • Edson Lobo
  • Tita Lobo
  • Donato
  • Wanda Sá
  • Edu Lobo
  • Deborah Colker
  • Chico Neves
  • Luiz Fernando Guimarães
  • Regina Casé
  • Roberto Carlos
  • Jorge Fernando
  • Alberto Continentino
  • Drake
  • Mallu Magalhães
  • Nego do Borel
  • Fabio Audi
  • Osama Bin Laden
  • Caetano Veloso
  • Jorge Mautner
  • Lincoln Olivetti
  • Liminha
  • Mario Caldato
  • Michael Jackson
  • Berna Ceppas
  • Daniel Carvalho
  • Gilles Peterson
  • Joao Duprat
FRASES E CITAÇÕES
  • “Você tem que ser dono da régua que mede seu próprio sucesso” citado por Henrique

se você curtir o podcast vai lá no Apple Podcasts / Spotify e deixa uma avaliação, pleaaaase? leva menos de 60 segundos e realmente faz a diferença na hora trazer convidados mais difíceis.

Henrique de Moraes – Fala Kassin, seja muito bem-vindo e obrigado por ter topado participar cara, obrigadão pelo seu tempo aí.

Kassin – Pô obrigado Henrique, eu que agradeço.

Henrique de Moraes – Cara, eu queria começar fazendo uma pergunta, mas eu vou contextualizar antes, eu sou músico né, e eu fiz faculdade de produção fonográfica lá na Estácio com o Mayrton Bahia né, que você deve conhecer

Kassin – Sim, grande Mayrton, adoro ele

Henrique de Moraes – É, Mayrton é uma figura cara e assim, a faculdade em si não serviu de muita coisa, acabei seguindo outra coisa da vida, mas uma coisa que valeu muito cara era ouvir as histórias do Mayrton, ele trazia as história dos artistas, história de estúdio, e gente se divertia muito, era uma mais engraçada que a outra né, no final das contas. E aí eu queria começar perguntando se você lembra de alguma história engraçada de estúdio, essas coisas assim, ou de gravação, de artista, não precisa citar nomes é claro.

Kassin –  Cara, eu lembro, acho que não caberia num programa ficar falando aqui de história, de coisas, mas eu lembro de tudo, lembro desde gente que tomou drogas sem saber que era droga e passou o dia inteiro muito louco, é um negócio que é difícil assim porque estúdio gravação você põe um monte de maluco trancado junto num espaço né, e eles vão ficar ali por 10 horas, então tem tudo pra dar errado e muitas vezes dá né. Eu já vi briga em estúdio de um cara jogar uma guitarra no outro, já vi um pouco de tudo assim.

Henrique de Moraes – Caraca, essa essa do cara que não sabia deve ter sido louco, imagina o cara ficar o dia inteiro drogado

Kassin – E todo mundo achando ele engraçado, e ele não sabia, é um negócio perigosíssimo, né cara

Henrique de Moraes – É verdade é verdade, a gente tá rindo mas é perigoso. Crianças não repitam isso em casa

Kassin – É, nem um pouco. Tem um cara que trabalha comigo lá no estúdio, o Mauro Araújo, trabalhamos lá eu e ele, ele fez Estácio também, ele e muitas pessoas que passaram por ali passaram pela Estácio, eu sei assim que não é talvez a melhor faculdade de áudio, mas eu acho que muita gente boa passou por ali, eu acho essa uma iniciativa que eu apoio muito sabe, do Mayrton, porque eu acho que aquilo ali é uma coisa que mudou uma geração de áudio no Rio assim, e conseguiu trazer, a quantidade de gente que eu conheço que passou por ali e que talvez não tivesse tido uma vivência de áudio, é uma coisa incrível poder ter oportunidade assim de estar num ambiente, porque eu acho que a faculdade por mais até do que você aprende, depois que você entra na guerra do estúdio mesmo é que aquilo vira alguma coisa, mas eu acho que mais do que você aprender, você ter oportunidade de estar com outras pessoas que estão querendo estar naquele meio, então uma faculdade serve muito para isso né

Henrique de Moraes – Sim, com certeza. E o Mayrton fez isso mesmo né, ele acabou desbravando ali caminho que a galera não tava explorando aqui né, pelo menos na época eu não lembro de ter, tinham cursos né, mas não tinha nada dessa um diploma né, que você pudesse usar depois e colar na parede de casa com orgulho.

Kassin – Cara, quando eu comecei a trabalhar em estúdio, e foi muito cedo, você não tinha nenhuma educação formal sobre isso sabe, sobre áudio, e era era uma coisa muito difícil assim, muito difícil de ter acesso à informação, era um período pré-internet então você não conseguia assim ter uma literatura em português daquilo, eu acho que esse negócio assim de haver uma, isso é um passo que hoje as pessoas, talvez como a coisa toda na internet você vê tudo que tá acontecendo, é uma coisa fácil, as pessoas não sabem como era isso antes. A literatura, que o Mayrton foi bastante desbravador e o Sólon do Valle também, o Sólon foi uma figura importantíssimas inscrevendo aqueles livros e levando a revista Revista Áudio Música & Tecnologia adiante assim, essa literatura em português sobre áudio, sobre acústica era muito difícil cara.

Henrique de Moraes – É verdade. Eu conheci o Sólon também, eu fui num workshop dele, e a gente estudava na faculdade tinha aula de acústica e a gente estudava pelo livro dele né, e me ajudou muito também porque quando eu quis montar um estúdio na casa do meus pais na época, porque eu era baterista então imagina né, os vizinhos ficavam loucos, e o livro dele foi o que me guiou pra fazer 100% do trabalho assim, e era engraçado né, porque eu chegava com as teorias pros pedreiros, e os caras não acreditavam que né, eu falava “Não, tem que ser duas paredes e elas não podem encostar em ponto algum”, e caras “Não, como é que a gente vai fazer isso?”, era engraçado, eles não entendiam, falavam “Não, mas não tem como”, aí eu tive que demitir o primeiro, porque o cara tava botando vários pontos, ligando uma parede à outra e não podia, porque senão passa vibração né, e o cara não entendia porque, aí eu consegui um outro que tocou o projeto direitinho, foi 100% e o estúdio foi ótimo, eu consegui estudar até de madrugada, e estudar bateria de madrugada é um privilégio que poucos têm.

Kassin – Isso é difícil, né? O Sólon foi engraçado, ele veio me entrevistar lá pra revista, e ele entrou no meu estúdio e falou assim “Você tem um problema de ring em 4K aqui nessa sala”, na hora que ele abriu a porta. Eu falei assim “Esse cara vai ser meu amigo o resto da vida”, e foi isso que aconteceu, a gente se falava muito cara, ele era um amigo muito querido .

Henrique de Moraes – Legal, e aproveitando que você falou aí do início né, quando você entrou, a dificuldade, que não tinha literatura, não tinha nada né, como é que você foi que parar nesse mundo? Você já era músico?

Kassin – Eu fui parar nisso assim, quando eu tinha um oito anos eu comecei a tocar, tocava violão, e depois com 10 anos eu tinha um vizinho no andar de baixo chamado Edson Lobo, que é casado ainda hoje na Tita Lobo, eles são assim, eles que me puseram na música mesmo, o Edson é contrabaixista, tocou com todo mundo desde a época da bossa nova assim, até hoje, e a Tita é uma compositora e violonista, eles são incríveis assim, e eles me pegaram pra criar, eles tinham filhos da mesma idade, Ronaldo, João Paulo e Fernando, e eu batia com a idade do meio, do Ronaldo, que é um baixista e guitarrista excelente também. E aí eles começaram a ensinar os filhos e algumas pessoas da turma dos garotos assim, a tocar, então eu tive essa sorte, eles como eram da turma da bossa nova, semanalmente tinha uma galera da bossa nova tocando lá, então conheço Donato dali, com quem eu convivo até hoje, lembro de ver assim Wanda Sá, Edu Lobo, essas pessoas tocando na sala da casa deles, e tocando assim sem uma preocupação de estar fazendo show, tocando para se divertir. Então minha primeira vivência musical foi essa, e em casa meu irmão era discotecário, então tinha essa relação assim com aprender a tocar e ficar vendo essas reuniões musicais que aconteciam em baixo, e esse amor pela música gravada, e para mim, eu sempre tocava junto com os discos, eu tinha, acho que até hoje assim eu tenho um prazer da audição dos discos mais até do que tocar sozinho, não sou aquela pessoa que fica em casa tocando, sabe? Isso nunca me atraiu, sempre me atraiu a coisa da música gravada e como fazer certas coisas e a execução daquilo, aquilo sempre me atraiu desde cedo. Eu comecei então a trilhar um caminho assim de tocar, eu comecei a tocar até sei lá, em piano bar, karaokê, qualquer coisa que pintava né, fui emancipado com 15 anos de idade, por que já tava assim trabalhando e tocando, comecei a trabalhar com 12 anos, as coisas lá em casa não eram assim muitos fáceis, então ajudava com uma grana na casa, e quando eu tinha uns 16 anos me contrataram, parece que eu tô falando dos anos 60, mas isso eram os anos 80 no Brasil, me contrataram como músico de um estúdio de gravação, onde eu tocava baixo, eu era assalariado, eu ia lá segunda, quarta e sexta e eu tocava qualquer coisa que o cara quisesse gravar, e tinha uma banda assim, era ótima, foi experiência incrível, imagina você estar com 16 anos, gravando três vezes por semana, ganhando um dinheiro para aquilo, eu deixava meu baixo ali e voltava ali e já tava tudo montado, ficava montado. Então gravava de tudo, gravava jingle, disco de forró, disco romântico, qualquer coisa que passasse por ali. Aí, fazendo esse negócio teve uma hora que eu fui me interessando pelo mundo do áudio e fui me aproximando do engenheiro de som, e o cara que era o dono do estúdio, quando ele tava com muita coisa para fazer ele começou a ver em mim uma pessoa em quem podia confiar assim para tocar certas coisas, então tinham coisas que ele começou a passar para mim, porque ele via que eu gostava de ver as coisas organizadas dentro do estúdio, eu comecei a ir mais pra mesa de som e ter alguma relação com aquilo e aprender como sincrofonava, esse tipo de coisa, tudo isso eu aprendi ali, eu fui aprendendo já trabalhando, então ao mesmo tempo que eu tava trabalhando como músico eu tava aprendendo a coisa da engenharia de áudio e aprendendo a coisa de produção. Depois eu fui morar em Nova York, meu pai é americano e minha mãe quando se separou dele casou com outro americano, e eu fiquei lá um ano e meio quase dois, e quando voltei ao Brasil com 19 anos eu fui contratado pela TV Globo para fazer parte daquele programa Brasil Legal, eu tinha feito uma trilha sonora para Deborah Colker, junto com o Chico Neves que foi um grande professor para mim, que também assim, eu ia para casa dele para observar ele gravando, ele me ajudou muito, e aí dali me contrataram para Globo, fiz uma peça do Luiz Fernando Guimarães, que era um especial, uma coisa meio musical, tinha que fazer canções e tudo, e a Regina Casé era diretora, ela gostou do meu trabalho me chamou para Globo.

Henrique de Moraes – Legal, e o que você fazia no programa dela, exatamente?

Kassin – Eu fazia uma espécie de redação musical e às vezes viajava, porque aquele programa era um programa que viajava pelo Brasil, gravando festas populares, e ela entrevistava pessoas nas vidas delas assim comuns né, e aí às vezes eu viajava com o programa, às vezes eu organizava assim coisas que eu achava legais, é claro que tinha uma equipe de redação, então todo mundo se ajudava um pouco mas às vezes eu falava “Ah, tem essa banda aqui nesse lugar que é super legal, acho que a gente deveria gravar”, e aquilo fazia parte do programa. E aí fazia trilha sonoras, na Globo quando você é contratado, você faz parte da emissora né, então digamos que o programa grave oito meses por ano, nos outros três meses, que além do mês de férias você fica disponível para qualquer coisa, então isso para mim foi escola incrível porque eu fazia o programa da Regina e nos outros três meses eu ia cobrir o buraco de alguém, sei lá, no Você Decide, em diversos programas, Zorra Total, eu passei por alguns programas, eu fiquei lá por 10 anos, e cara fazia o que aparecesse, assim, e isso foi uma experiência incrível assim, desde gravar banda ao vivo, ter que mixar às pressas, e ter uma data, ter que ter esse controle de como executar um projeto com rapidez e tecnicamente efetivo né, a Globo para mim foi a minha faculdade, foi a faculdade de áudio e de produção assim que eu não tive, sabe.

Henrique de Moraes – Legal. E ficou 10 anos lá então, né?

Kassin – Fiquei 10 anos, fiquei dos 19 aos 29.

Henrique de Moraes – E assim, você lembra de algum trabalho muito curioso que você tenha feito cara, muito diferente?

Kassin – Uma coisa que eu fiz que foi incrível, cara tava com 20 anos então você imagina o que é uma pessoa com 20 anos passar por isso assim, eu fui chamado para fazer vinheta pra especial do Roberto Carlos, e eu tava assim morrendo de medo, imagina você com 20 anos, e aquilo era uma coisa assim, era o Jorge Fernando o diretor do especial e ele gostava das coisas que aconteciam musicalmente no Brasil legal, aí me indicaram para fazer as vinhetas, e eu tava assim apavorado. Aí rolou uma história que sou muito engraçada, eu acho que eu posso contar aqui porque foi uma coisa incrível, ele tava preocupado, o Jorge Fernando, de fazer uma coisa que tivesse assim meio uma montagem com as músicas do Roberto, mas aquilo tinha que passar por uma aprovação dele, e aí ele falou “Amanhã você chega lá, chega uma hora antes, monta isso nessa sala de reunião, vai para sala tal monta tudo lá para gente tocar as coisas para o Roberto, eu vou chegar junto com ele tal hora”, aí eu cheguei lá, montei, vi que tava tudo chegando, e quando acabei de montar chegou o Roberto, entrou na sala o Roberto Carlos, eu e ele sozinhos na sala assim “Tudo bom, cara?”, eu falei “Pô, tudo bem”, “Ah, você é o Kassin? Prazer, eu vi as vinhetas, toca aí pra mim”, aí eu meio sem graça assim né “Poxa, o Jorge pediu para esperar né, porque ele queria ouvir junto com você”, ele falou assim “Cara, eu que mando nisso aqui, toca esse troço aí”, aí eu dei um play nas vinhetas e ele adorou, falou “Pô, isso tá muito bom, como é que você fez isso?”, ficou curioso assim, era o início de uma coisa assim de samplers, então eu tinha sampleado coisas dele e posto de um lugar para o outro, uma coisa assim com bateria eletrônica, e aquilo naquela época ainda não era uma coisa assim muito em uso, então ele ficou “Pô, que legal”, tava curioso e gostou, e falou assim “Vamos pregar uma peça no Jorge Fernando, quando ele chegar você fica olhando para baixo e deixa que eu falo” aí ele ele ficou assim, quando entrou o Jorge Fernando tava eu e o Roberto, eu olhando para baixo assim com uma cara de “deu merda”, e o Roberto assim “Jorge, essa direção que você tá querendo levar o programa é um absurdo, o programa esse ano tá cancelado!”, cara o Jorge Fernando ficou com uma cara de pânico por um minuto, e aí ele “Não, não, é brincadeira, tá ótimo”

Henrique de Moraes – Imagina o que que se passa na cabeça e no coração de um pessoa dessa, né cara?

Kassin – Pô, imagina escutar aquilo do Roberto Carlos?

Henrique de Moraes – Caraca, muito louco mesmo.

Kassin – Pô, mas o Roberto ele é um cara muito legal cara, quando eu imagino assim, às vezes eu fico imaginando como o mundo era louco assim, o cara tava dentro de uma sala, ele e o grande ídolo do Brasil, tava assim, uma hora e meia numa sala, comigo com 20 anos de idade e que não era ninguém assim, totalmente na boa né, uma coisa que não sei se hoje em dia aconteceria desse jeito, sabe? Não sei se as empresas dão essa força à alguém começando tão cedo assim, mesmo que a pessoa tenha muito talento às vezes existe uma desconfiança, se a pessoa vai ser capaz, isso era uma coisa incrível da Globo, os caras te jogavam numa fogueira, com uma responsabilidade assim, você tendo que responder à números de audiência e tudo, com 19, 20 anos de idade, é incrível assim isso como ideia né

Henrique de Moraes – Verdade, tem uma coisa que você falou que é engraçado né, que você começou a ter que cumprir os deadlines deles né, eu acho que deadline é uma coisa que separa os meninos dos homens também né, porque é a hora que você vai mostrar ali se você consegue entregar ou não, e acho que é onde todo mundo dá problema, dá bug e acaba saindo, largando, não aguenta a pressão né

Kassin – É, acho que tem uma coisa assim sobre o universo da produção musical e do áudio, que é diferente da coisa de tocar. É claro que quando você tá tocando também você tem que entregar, mas tem uma coisa que é a coisa industrial, eu acho que esse aspecto industrial ele é o que faz a diferença entre a pessoa estar realmente preparada ou não, ela ter tido a oportunidade de passar por um processo industrial, de entrega, de ter que acabar um negócio com um nível de exigência alto em pouco tempo, em poucas horas, fazer isso, sei lá, vinte vezes ao longo de um mês, eu acho que aonde quer que isso aconteça é onde você começa a perceber um refinamento sabe, e é uma coisa que eu vejo hoje em dia no Rio, e assim, tô falando do Rio como uma coisa hipotética, vejo assim, que com a internet em geral as coisas vão ficando um pouco mais amadoras, você consegue resolver uma coisa rápido com muito pouco, então as pessoas vão ficando menos apuradas no nível técnico, do que elas precisam fazer. Eu observo assim com muita atenção por exemplo, o universo da música gospel e do funk aqui no Rio, porque eu acho que são universos onde as pessoas uma precisam estar numa pegada industrial, e vejo assim, que os músicos se desenvolvem com uma velocidade e tem uma coisa assim de entrega que os outros gêneros não tem.

Henrique de Moraes – É verdade, e os músicos gospel eles tem uma uma coisa também que o pessoal de fora da igreja não tem que é a disputa né, assim, eu durante um tempo estranho da minha vida, eu frequentei uma igreja evangélica, e nada contra, é porque foi uma fase estranha mesmo na minha vida, e uma coisa que eu percebia muito era que os músicos eles disputavam para tocar ali, eles disputavam quem tocava melhor também, tinha uma disputa que podia se tornar uma coisa ruim né, mas assim normalmente era saudável, porque um queria ultrapassar o outro tecnicamente, queria ser o cara principal do culto, tem uma cultura de música que eu não vejo tanto, pelo menos da minha criação, quando eu era músico, eu não tinha isso assim, depois quando eu tive um amigo que era baterista, aí rolava uma disputa entre a gente sabe, que era saudável porque ele ia estudar alguma coisa, eu queria estudar também porque não queria ficar para trás, eu acho que essa coisa de você ter mais gente, uma cultura de pessoas ali né, um grupo de pessoas tocando e tentando ocupar o mesmo espaço, e tentando se destacar, isso faz bem no sentido de desenvolvimento pessoal né.

Kassin – É, alguma competitividade é positivo né, porque você tendo, eu vejo assim por exemplo, até em volta de mim, uma pessoa que eu fiquei muito amigo assim de anos para cá é o Alberto Continentino que para mim é um dos maiores baixistas do mundo, eu digo isso assim, eu conheço muitos baixistas, eu toco baixo também, e eu falo isso não porque ele é meu amigo mas porque eu acho realmente isso sabe, eu acho ele um baixista difícil de achar, e eu estar perto dele me faz tocar melhor, eu reparo isso sabe, que a convivência com ele faz com que eu toque melhor e não é nem uma coisa competitiva.

Henrique de Moraes – Tem uma coisa também, que você falou né, que você tava ali na sala com o Roberto Carlos, e eu fiquei pensando como essa cena hoje em dia seria diferente né, porque com essa coisa de redes sociais, ou você, ou ele, ainda mais você com 20 anos na época né, se fosse hoje em dia você estaria no auge de repente ali do uso de rede social, e provavelmente rolaria a captação ali em tempo real né, fazer uns stories, que era uma coisa que antigamente não existia, você não sabia nem o que o artista tava fazendo né, você não fazia ideia, de que que quando ele nao tava no palco ali ou na tv você não sabia o que tava acontecendo com o artista

Kassin – É, isso é uma coisa que eu ainda estranho um pouco porque, não a parte do artista assim, mas eu sempre gostei desse aspecto do estúdio de que o que você faz lá dentro, é segredo, sempre tinha uma coisa de que o estúdio era o lugar que as pessoas tinham assim, um negócio do tipo ninguém sabe muito bem o que tá acontecendo lá, tipo uma fábrica de salsicha sabe, você fala assim “Cara, como os caras estão fazendo essa porra eu não sei, mas tá gostoso sabe?” sempre teve esse negócio um pouco assim, tinha esse mistério né, e agora não, agora a pessoa tá ali no estúdio, não só assim, às vezes eu tô no estúdio, tem um cara fazendo um live e tem um cara do lado no Tinder

Henrique de de Moraes – Preocupação zero com a parte dele né, na música.

Kassin – Pois é, não é um saudosismo, mas é uma coisa assim de, cara, um pouquinho de concentração é bom, né

Henrique de Moraes – Verdade, ainda mais em estúdio né cara, que é difícil, não é fácil, se bem que hoje em dia você pode acertar tudo, mas não é o ideal, o ideal é que você grave certinho

Kassin – É, eu acho que isso até cara, vai virar uma outra coisa daqui a pouco, porque como que a gente faz assim, música é uma coisa que as pessoas tendem a fazer de uma maneira amadora né, assim o seu primeiro ímpeto, tô falando não amadora assim, o seu primeiro ímpeto de fazer música ele é um ímpeto de você querer fazer parte daquilo não pelo dinheiro, e na verdade as pessoas que trabalham com isso elas tem esse ímpeto, elas estariam fazendo aquilo de qualquer maneira, óbvio que uma hora você tem a oportunidade de seguir fazendo ou você não tem a oportunidade de fazer aquilo, aí você vira uma outra coisa, e continua tocando, ou para de tocar ao longo de um tempo, mas assim, o ímpeto, a ideia inicial, o combustível eu não tenho nenhuma dúvida de que ele é o mesmo para todo mundo, sabe assim, o que move a pessoa a fazer parte daquilo é a mesma coisa, então acho que esse negócio aí, do jeito que tá hoje, aonde não tem esse aspecto industrial, vai tender a ter mais gente, mais amadores

Henrique de Moraes – Essa era uma questão que queria falar com você, inclusive, porque outro dia eu até vi um termo, que eu achei interessante, que é “the good enough media”, que em tradução livre seria “a mídia boa o suficiente”, e isso muito voltado para artistas que lançam álbuns gravados no celular, ou até até mesmo, acho que o Drake, não foi o Drake não, foi outro rapper que lançou um cd, que a capa, a foto da capa, ele tinha tirado com um iPhone, ele divulgou isso. Então assim antigamente você tinha uma produção, ou você contratava um artista, e agora o cara tá tipo lançando o álbum dele com uma foto que ele tirou no iPhone dele né, e tem essa tendência, inclusive pessoas que lançam músicas no YouTube, por exemplo a própria Mallu Magalhães né, que você produziu, ela começou assim né, ela botava os vídeos dela acho que no YouTube, se não me engano, e aquilo foi crescendo de uma maneira assim, incrível, e ela foi chamada para programa de TV, enfim, e acho que a carreira dela foi foi crescendo né, e como é que você encara isso tudo assim, esse processo mais, não sei se mais natural mas ao mesmo tempo mais amador, e uma pessoa que pode fazer sucesso sem nunca ter passado por um estúdio antes, por exemplo?

Kassin – É, eu acho, na verdade cara eu acho positivo, eu acho muito positivo a ideia ser uma coisa acima da técnica, porque eu acho que no fundo técnica é uma coisa que quem quer ter técnica faz, mas aquilo não é a principal coisa sabe, e eu acho que assim, a ideia de que uma boa ideia consegue te levar a lugares, eu acho muito positivo né, então não consigo ver o mundo assim de hoje como uma coisa negativa, eu fico vendo aqui na internet tem música incrível acontecendo em todo lugar e o tempo todo, você olha assim no Instagram tem um menino de 10 anos produtor mandando ver, tocando baixo, e você começa a ter noção de fenômenos assim ao redor do mundo, eu acho que isso diminui a distância. A parte que eu acho engraçada é, esse aspecto é o aspecto que eu acho negativo, é que o valor de uma ideia, ele agora é relacionado ao número de views, e não à qualidade artística, então assim, paralelamente à isso, essa parte eu acho negativa, porque eu acho que às vezes tem um cara fazendo uma coisa absolutamente genial e que num modo assim, de uma amostragem muito grande, tipo Spotify ou tipo YouTube, mesmo que ele esteja fazendo aquela coisa genial e que aquilo tenha um número de views irrelevante, porque não é um número de massa, aquilo vai ser considerado uma coisa menor, e isso eu acho que é muito cruel para música, porque isso gera uma coisa de que toda e qualquer música, mais pobre talvez não seja o termo, mas assim menos interessante, mas que tenha uma coisa mais imediata, claro que a música sempre foi um pouco assim, mas havia alguma arte em você conseguiu colocar uma coisa interessante numa música popular, e hoje em dia isso aí tá se perdendo, tô falando isso sem preconceito algum porque eu tô falando isso assim, eu fico de olho em tudo que tá acontecendo sabe, desde músicos virtuosos até funk 170, funk 150, eu tenho ainda um prazer enorme de consumir música e eu acho que isso que me faz continuar fazendo o que eu faço, mas esse aspecto assim de que as coisas são niveladas por baixo, isso acho ruim.

Henrique de Moraes – Entendi. É porque também como as pessoas julgam o sucesso na verdade né, da pessoa, do outro, então você pega sei lá, um artista que tem milhares de views e um está fazendo às vezes um trabalho incrível e tem poucos, parece que ele é menos bem-sucedido né

Kassin – Então, é esse aspecto que eu acho que a coisa em algum lugar fica um pouco mais pobre, porque sei lá, é como se de repente tudo fosse só os hinos de futebol, fosse assim, você só tem a Coca-Cola, você não tem as coisas é, você fica com a coisa muito rasa.

Henrique de Moraes – Sim, acho que também é como a gente também escolhe enxergar eu acho, porque não necessariamente alguém que tem menos views, tanto Spotify, YouTube, seja qual for a plataforma, isso talvez não desmereça o sucesso que aquela pessoa alcanço porque se ela atingiu o nicho dela, e o legal da internet é isso também né, que você tem pequenos nichos muito específicos, então se você quer saber sobre sei lá, eu quero encontrar pessoas que são apaixonadas por canecas de café, você vai encontrar aí algum grupo, algum lugar que as pessoas vão discutir a beleza das canecas de café pelo mundo né, acho que o problema maior de como as pessoas enxergam o próprio sucesso e como elas medem isso, porque elas podem encontrar pessoas que amam o que elas fazem, e se conectarem ali com aquela tribo, pessoas que tenham os mesmos gostos e valorizam o trabalho que ela faz, e isso trazer felicidade para ela, e de repente ter algum público ali, de alguma forma tentar monetizar em cima disso, ou a pessoa pode se comparar com uma pessoa que é popular né, e ficar o tempo inteiro e se colocando para baixo achando que ela nunca vai atingir aquele sucesso, de repente não vai porque o negócio dela é para atingir essas pessoas específicas mesmo, então tem uma frase que eu gosto muito que é “Você tem que ser dono da régua que mede seu próprio sucesso” né, não deixa o mundo falar para você

Kassin – Isso que você tá falando é o que eu concordo, mas o fato na vida real, e eu vejo isso porque eu trabalho com áudio, eu vejo muitas vezes uma pessoa que tem alguma história e uma construção de uma carreira sólida, ser mastigada e posta de lado assim, por um meio que é cada vez mais efêmero, é disso que eu tô falando, porque assim com essa coisa de tudo ser efêmero, e rápido, uma coisa que se consome rápido, o que acontece efetivamente é que a pessoa não tem a oportunidade dela melhorar no que ela faz e viver daquilo, então cada vez mais as pessoas que estão numa banda ou fazendo alguma coisa artística, elas têm menos a possibilidade de viverem daquilo, porque ela não consegue ter uma longevidade na carreira dela. Eu vejo isso eu tô falando não de mim assim, porque eu acho que já consegui realizar coisas, e nesse negócio o que você faz é um conjunto da obra né, então sei lá, se você já realizou coisas as pessoas te chamam, eu continuo trabalhando, trabalho com gente nova, com gente da minha idade, com gente mais velha, eu não tô falando uma visão pessimista, é observação mais de que eu vejo menos chance hoje em dia e isso me preocupa, de uma pessoa com vinte, vinte e poucos anos, conseguir chegar na minha idade, eu tô com 46 agora, vivendo exclusivamente de música. Essa oportunidade que eu tive na vida, eu não consigo enxergar que alguém com 20 anos tenha tanta possibilidade assim ,entendeu? Mesmo assim, observando fenômenos recentes, se você pensar, sei lá, pensa aí um fenômeno recente

Henrique de Moraes – Ih rapaz, eu sou bem out disso

Kassin – É, vamos ver assim, sei lá, Nego do Borel, abstratamente. Um fenômeno assim, recente, o cara tem grandes gravações, tem sucesso e tal, imagina ele daqui a 20 anos, que longevidade isso vai ter, qual a possibilidade a vida vai dar a ele de que ele se sustente, o que é que vai apontar que essas pessoas daqui a 20 anos ainda estejam vivendo disso, entendeu? Mas também as coisas são como são né

Henrique de Moraes – É a gente vai se adaptando

Kassin – A sociedade vai mudando

Henrique de Moraes – Verdade. Cara, queria te fazer uma pergunta aqui, que é talvez a pergunta mais importante desse bate papo, tô brincando mas, cara de onde veio a inspiração para o clipe de Relax, que é a melhor coisa que eu já vi?

Kassin – Pô, obrigado!

Henrique de Moraes – Cara, a primeira vez que a gente viu esse clipe, um amigo meu me mostrou, ele é produtor musical também e ele curte muito seu trabalho ele falou “Cara, você já viu esse clipe?”, a gente ficou vendo, acho que a gente viu umas três vezes seguidas, e isso eu levei lá para minha agência e virou o hino da agência, a gente ouve agora e toda vez que a gente vai comemorar alguma conta ou alguma coisa, alguma campanha que deu certo toda pessoa tem que levantar, a gente toca, bota o clipe e todo mundo tem que dançar juntos, a agência inteira, ninguém pode ficar parado

Kassin – Cara, eu preciso ver, você precisa filmar isso um dia pra mim, pelo amor de Deus

Henrique de Moraes – Vou filmar, vou filmar e te mando. Agora tem que esperar voltar, né, a agência

Kassin – Ou o dia que tiver uma conta que você sabe que você vai fechar eu apareço lá com a galera

Henrique de Moraes – Porra, aí ia ser maravilhoso, cara, ia zerar

Kassin – Cara, eu tava fazendo essa, na hora que eu pensei esse clipe eu imaginei assim uma mistura de dois clipes, que eu queria refazer, esse clipe foi feito na parte de trás do meu estúdio, eu botei uma tela de chroma e a gente fez tudo lá. Eu tinha a ideia mais ou menos do que eu queria que acontecesse, e eu chamei o Fabio Audi, que é um amigo meu que fez a capa do disco e fez os outros clipes também, e ele arrebenta, super fotógrafo, super bom diretor, aí eu falei “Fabio, tava pensando em fazer um negócio mais ou menos assim”, falei pra ele da ideia, aí fomos pra lá, ali é um espaço mínimo, um espaço pequenininho com uma tela de chroma aí a gente falou “Vamos fazer um negócio, eu queria fazer tipo aquele clipe dos Jacksons, do Can You Feel It”, porque  eu sempre fico um pouco fascinado com essa estética dos anos 80 que parece que os clipes tem cocaína saindo deles sabe, então assim, tem uma coisa que de repente é um período da humanidade que as pessoas achavam legal ter um cara jogando um pó branco sobre a cidade, ou sei lá, tipo aquela parada, Clube da Criança, tem uma música “felicidade está embaixo do seu nariz”, tem uma coisa assim nessa década, no início da década de 80, os caras estavam falando de cocaína em qualquer lugar né

Henrique de Moraes – Se abrissem uma oportunidade eles colocavam né, cocaina na

Kassin – É, assim, pra criança, como um negócio meio de fantasia, esse pó de pirlimpimpim, eu queria que o clipe tivesse esse, assim, citasse esses clipes. Eu não tenho relação alguma com cocaína, pra falar a verdade, mas eu achava que aquilo era uma coisa curiosa. Esse clipe e o clipe do Earth, Wind & Fire, que eles dançam com aquelas coisas que vai passando vários deles, faz uma sombra deles mesmos, aí eu falei “Cara, vamos fazer uma coisa assim, só que tosco, tipo tudo feito assim com chroma”, porque isso era outra coisa né, na época que os caras fizeram esses clipes, esses clipes custavam sei lá, um milhão de dólares, pro cara cruzar toda tecnologia de efeitos especiais, hoje em dia você consegue fazer com After Effects.

Henrique de Moraes – É, muito louco, a criança pega e faz e bota no Tik Tok

Kassin – Sai igualzinho, sabe?

Henrique de Moraes – Se bobear tem um filtro que você faz isso no Instagram ou no TikTok, que você só bota e já tá fazendo o efeito.

Kassin – É, então, a ideia era meio essa, de fazer um negócio baseado numa época específica, até porque a música tem um pouco desse negócio também, ela é pensada, é como se fosse uma música de 81, 82 né

Henrique de Moraes – É muito bom, eu recomendo todo mundo que ainda não assistiu, por favor, YouTube, bota lá Relax – Kassin, e divirtam-se, porque caraca eu devo ser responsável por 50% dos views, mais ou menos, por baixo, deve ser por aí

Kassin – Você até me anima de fazer mais clipes, cara

Henrique de Moraes – Faça cara, pelo amor de Deus, é muito bom assim, e é isso, uma mistura de uma época que traz uma nostalgia né, embora eu tenha nascido nos anos 80, eu consumi muita coisa dos anos 80 então, mesmo  depois, então assim, você traz essa nostalgia, ao mesmo tempo é muito caricato, então assim, e cada cena, é muito genial, eu não vou falar porque senão vou fazer spoiler aqui, dar spoiler pra galera, tem que assistir porque é sensacional, muito bom. Cara, queria te perguntar sobre um disco que você lançou e que eu fiquei bem curioso, o que eu li pelo menos é que você tocava ele com Game Boy, “Free U.S.A.”, acho que é isso

Kassin – É, eu fiz esse disco, eu fui numa viagem ao Japão, cara foi uma comédia esse negócio, parecia um filme, assim. Foi logo quando começou a guerra no Afeganistão, quando os caras começaram a procurar o Osama Bin Laden, e a gente tava fazendo uma turnê com mais dois pelos Estados Unidos, o último show foi o dia que começou a guerra, tava um clima horrível, assim, e tinha essa coisa assim de ‘free Iraque”, “free Afeganistão”, tipo essa ideia assim, sabe, e eu passei pelos Estados Unidos nessa turnê e cheguei no Japão, era um época assim que você não andava muito com laptop, eu tava indo pra lá pra produzir um disco de um artista japonês, e quando eu cheguei o cara falou assim “Cara, eu tô com um problema aqui, acabou que a gente se comunicou mas depois você não respondeu, tô tentando falar contigo um tempo”, e o cara não assinou com a gravadora, o cara me falou isso no aeroporto, e eu falei assim “E agora?”, aí o cara “Eu tenho duas demos aqui, de dois artistas, que assinaram com a gravadora, que eu queria ver se você topava produzir. Se você topar, a gente até faz os dois discos, mas vê aí se você gosta, vai pro hotel, dorme e tal”, aí eu fui depois pro hotel, ouvi, achei aquilo legal

Henrique de Moraes – Você já tava no Japão ou tava nos Estados Unidos ainda?

Kassin – Eu tava no Japão, eu cheguei no Japão com essa notícia, eu ia passar lá sei lá, duas semanas, três semanas, e ia voltar para casa, e aí fui para fazer um disco, acabei fazendo dois só que entre eles tinha um intervalo de 3 semanas. Então eu fui pra ficar um tempo e eu fiquei muito tempo, e a única coisa que eu tinha, tinha chegado logo antes de eu sair era esse negócio que você podia acessar um game boy e programar como se fosse uma sequência, e aí isso era o que eu tinha de instrumento no Japão, não tinha mais nada, então nesse tempo que eu fiquei lá eu tava com algumas músicas na cabeça, eu ia fazendo nesse negócio, no meu instrumento, quando eu cheguei de volta no Brasil tava com o disco pronto, eu dei rec assim pra gravar, gravei as vozes, mixei tudo no mesmo dia, eu fiz o disco inteiro em um dia, entre gravação e mixagem, e aí lancei esse negócio e excursionava com aquilo

Henrique de Moraes – É mesmo, você chegou a fazer?

Kassin – Cheguei, cheguei a fazer, eu fui até sei lá, aquele festival Sónar em Barcelona, foi um disco que saiu bem, que tinha assim, não tinha ninguém fazendo aquilo no mundo, então tinha uma curiosidade sobre aquilo, eu consegui viajar bastante com esse disco, foi super legal

Henrique de Moraes – Legal, foi em 2005 isso?

Kassin – Acho que sim, cara

Henrique de Moraes – E como é que foi no Japão? Um dos meus sonhos é visitar o Japão, mas acho que um dos meus sonhos é visitar o Japão nessa época, pré-internet, sabe?

Kassin – Essa época de hoje em dia?

Henrique de Moraes – Não, antigamente, porque com a internet assim é muito bom, porque você consegue planejar muito melhor suas viagens

Kassin – É mais fácil hoje cara , ir ao Japão, do que era

Henrique de Moraes – Não sim, eu acho que é mais fácil, mas acho que tira um pouco da surpresa de você chegar num mundo completamente diferente, porque o Japão era outro mundo, como é que foi assim?

Kassin – Sim, mas era outro mundo e você assim, ninguém falava inglês, não tinha nada escrito romanizado, e assim, você queria procurar uma loja de discos, você tinha que ir com um mapa, era tipo um negócio meio arqueológico, sabe, hoje em dia é tranquilo né cara

Henrique de Moraes – Você já voltou lá?

Kassin – Eu tenho duas filhas no Japão, henrique

Henrique de Moraes – Caraca, sério mesmo?

Kassin – Eu vou muito ao Japão

Henrique de Moraes – Caraca, não sabia dessa não

Kassin – É, tenho duas filhas japonesas, eu fui casado com uma japonesa

Henrique de Moraes – Você conheceu nessa viagem? Nessa primeira viagem?

Kassin – Não não, conheci antes, em Nova York, e a gente acabou se casando, tivemos duas filhas. Ela morava aqui, a gente se divorciou e ela continuou morando aqui, e a mãe dela teve um AVC e ela foi, teve que ajudar a mãe, e levou as meninas, então minhas filhas tão la de volta já fazem 4, 5 anos

Henrique de Moraes – Caramba

Kassin – E aí eu fico indo, eu vou ao Japão uma, duas vezes ao ano, pelo menos

Henrique de Moraes – É, você vê que a vida é tudo uma questão de perspectiva, porque a minha, eu tenho uma filha que mora em Roraima, e eu acho longe pra caramba, mas acabei de perceber que nem é tão longe assim

Kassin – Cara, eu virei aquele caso entre os amigos, que é até engraçado assim tipo, quando alguém se separa, ou que tem essa situação a pessoa me liga e fala assim “Pô tá foda, mas quando eu penso na sua situação”, porque assim eu virei um caso que é tão extremo que não tem nem como começar a competir, sabe, eu sei que eu vou ganhar

Henrique de Moraes – É verdade.

Kassin – Então, mas engraçado porque a gente vai aprendendo né, eu falo com minhas filhas todos dos dias cara, falo pelo Facetime

Henrique de Moraes – É, tem essa vantagem hoje, né

Kassin – E eu tenho outro filho, elas brincam com ele pelo iPad, é muito doido isso né

Henrique de Moraes – É, é muito diferente, outra época né, totalmente.

Kassin – É uma outra época, uma época que o cara é criado com a irmã virtualmente.

Henrique de Moraes – E é engraçado porque se você lembrar né, de quando a gente via algum tipo de tecnologia como esse na TV, a gente achava que era tão longe, tão distante, e que quando isso acontecesse ia mudar nossa vida do dia pra noite, e como as coisas vão acontecendo naturalmente e a gente se acostuma muito rápido, eu comecei a parceber o quanto tinha mudado muito tempo depois, sabe? Porque eu já tinha acostumado com tudo, falei “Ah, beleza agora a gente faz Skype, agora a gente faz pelo celular mesmo, Facetime”, eu lembro de ter visto um episódio nos Simpsons, que era o telefone de casa, era o telefone fixo que eles atendiam, tava no futuro né, e eles falavam com a Lisa, não lembro, ou a Maggie que era a bebezinha, na faculdade sabe, e falando por TV assim, um telefone preso na parede de casa, olha como é que era a concepção né, era preso na parede de casa como se fosse um telefone fixo que tinha uma TV, e eles se falavam, eu falei “Nossa, no dia que isso acontecer, caraca”, e não, aconteceu e tá todo mundo aí, normal como se nada tivesse acontecido

Kassin – É, mas o ser humano se acostuma com qualquer coisa né cara, o cara perde uma perna e continua vivendo

Henrique de Moraes – Tem um amigo meu que fala isso, ele não tem WhatsApp né, ele decidiu que não ia ter o WhatsApp na vida dele, e aí quando eu falo assim “Mas como é que você sobrevive?”, ele falou “Cara, eu sou da época em que as pessoas não tinham um telefone celular e marcavam e os encontros aconteciam, então assim, se você quiser marcar comigo que você vai dar um jeito”

Kassin – É, ele tá certo né

Henrique de Moraes – E ele tira um peso ali né, do input que chega de WhatsApp que é uma loucura né, é difícil às vezes lidar com tanta coisa, tanta mensagem que chega e o imediatismo que pessoas esperam também

Kassin – É, isso é uma loucura, ao mesmo tempo você consegue resolver um monte de coisas e isso é ótimo né

Henrique de Moraes – Tudo tem o lado bom e o lado ruim, nao tem jeito né, faz parte da vida. Cara, eu queria perguntar qual foi o artista que você mais gostou de produzir, ou os artistas né, mas qual foi sei lá, o que você tem mais orgulho sabe, alguma coisa assim?

Kassin – Cara esse negócio é muito doido assim, porque os discos, isso é uma coisa sobre produção e sobre estúdio, mas quando você tá fazendo um disco, você tá fazendo, é mais um dia de trabalho, sabe? Os discos eles ganham a dimensão que eles ganham depois, enquanto você tá fazendo, tem discos que você fala assim “Cara, isso aqui tá demais, isso aqui vai ser uma loucura”, e não acontece nada, aí tem discos que você faz assim, e você fala “Ah isso tá legal”, e quando você vê pronto fala “Pô, ficou bom”, aí de repente aquilo é um grande sucesso, então é muito difícil você medir o que vai ser uma coisa, eu até sinceramente acho bom do estúdio não estar envolvido dessa aura, eu acho que você tem que poder correr atrás do negócio ficar bom independente de quem é a pessoa que tá ali, mas dito isso, eu tenho uma grande lembrança assim do disco que eu fiz com o Caetano e com o Jorge Mautner, e principalmente dos papos, da parte paralela ao disco, porque o Caetano e o Mautner são duas das pessoas mais inteligentes que eu conheço, então estar no estúdio com eles dois, e na verdade acabar de gravar, e os caras ficarem conversando sobre todos os assuntos do mundo, aquilo foi uma coisa incrível e que eu tenho uma grande lembrança assim, dessa época

Henrique de Moraes – Eu ia perguntar isso mesmo assim, mesmo sem pensar na parte de lançamento depois assim, mais na experiência, porque no estúdio você fica muito próximo das pessoas né, talvez não hoje em dia com as lives acontecendo no meio da gravação, mas antigamente quando não tinha isso pelo menos, você fica muito próximo ali né, as pessoas se conectam, conversam muito, eu lembro de, eu gravei dois discos na minha vida, não como produtor, como músico mesmo, a parte mais divertida era a conversa da galera com o produtor, com o técnico de som, as histórias, era tão legal

Kassin – É, isso ainda é legal, isso não vai deixar de ser legal, eu acho que essa parada do estúdio, ela tem um negócio que quando você tem mais de uma pessoa num ambiente pensando sobre música, cada um ouve de uma maneira diferente sabe, eu não acho que quando uma música toca todo mundo tá ouvindo a mesma coisa, eu acho que a música ela sai da caixa, tem uma pessoa que tá prestando atenção num negócio, tem a pessoa que tá triste e ouve aquele negócio e começa a chorar, é uma experiência pessoal e coletiva ao mesmo tempo, mas ela nunca é uma coisa assim de que se você botar pra pessoa e falar assim “O que você tá sentindo com essa música?”, cara, cada um tá ouvindo uma coisa, e também assim, em termos de arranjo, se você botar três pessoas pra mixarem uma faixa, você vai ouvir três músicas diferentes, tem um que vai achar que a voz tá alta, tem um que acha que guitarra é mais importante, tem um que acha que a música é sobre ritmo, pra cada um bate um negócio, então não tem homogeneização nessa hora, e tem um negócio que é assim, as pessoas juntas num negócio musical e vivendo um ambiente, aquela junção de pessoas é um ambiente muito interessante porque mesmo a pessoa que não tá trabalhando, a opinião que ela tem sobre a gravação, ela muda a gravação pras outras né.

Henrique de Moraes – Você lembra de algum que tenha sido, você não precisa falar o nome é lógico, mas que  tenha sido mais difícil de lidar, que tenha temperamento mais complicado?

Kassin –  Não, eu nunca tive uma situação, graças a Deus, de ter tido alguém sendo arrogante comigo assim, mas eu já estive em situações que existiam tensões dentro do projeto, tipo era uma banda, e aí tinha um problema entre a banda, ou um casal, aí tem problema entre o casal, eu já estive em situações aonde não que eu fosse o problema, mas que isso atrapalhava o projeto de alguma maneira, e era muito triste porque eu acho que qualquer coisa no áudio, quando as pessoas não estão se sentindo bem, é uma coisa que passa pra gravação de uma maneira terrível, acho que a pessoa consegue captar aquilo sabe, eu falo assim “Cara, esse cara tava se divertindo muito fazendo isso”, ou “Pô, esse cara aí tá odiando estar aí”, eu acho que isso é uma coisa que passa independente da qualidade do trabalho

Henrique de Moraes – É, com certeza, e você tem algum produtor musical que tenha te inspirado muito, nacional ou internacional?

Kassin – Cara, específico não, eu acho que tem uma tonelada de produtores que me influenciou, eu ouço muitos discos, e é uma coisa assim que eu adoro, eu adoro ouvir discos, eu passo o dia inteiro ouvindo discos se eu não estiver fazendo discos eu tô ouvindo discos. Eu acho que tem muita gente assim que me influenciou  e que até hoje me influencia, até pessoas mais novas que eu fico prestando atenção no que fazem, não sei, acho que aqui no Brasil uma das pessoas que mais me influenciou e que eu tive a oportunidade de ser amigo foi o Lincoln Olivetti, ele assim foi um grande ídolo pra mim desde que eu era criança, e eu conheci ele no meio dos anos 90, e consegui ter algum contato com ele, depois ficamos amigos e trabalhamos juntos, fizemos coisas juntos, aprendi muito com ele. Outro assim dos produtores brasileiros é o Liminha, com quem eu também tenho contato, é meu amigo hoje, mas que eu sempre prestava atenção no que ele tava fazendo.

Henrique de Moraes – Legal, e em relação ao Lincoln, você lembra de alguma coisa, algum aprendizado específico que tenha te marcado muito, não precisa ser exatamente da parte técnica, mas talvez de vida também?

Kassin – Com o Lincoln? Cara, com o Lincoln eu aprendia em tempo real, ele era engenheiro eletrônico, formado, ele tinha assim um ouvido e uma capacidade de arranjo que eu acho que vai demorar a passar outro pelo mundo com essa capacidade, eu lembro de ver ele numa gravação de cordas falando assim “Violino 16, aqui é 440”, esse tipo de coisa, o cara tem uma ciência, uma capacidade sobre as coisas assim, que não vai ter mais, então com ele aprendi o tempo todo, sobre acústica, sobre a parte térmica, teorias de harmonia, coisas que ele falava que eu levo até hoje

Henrique de Moraes – Caramba. Só para quem não conhece né, o mundo da música, acho que vale a pena até explicar assim porque, até me corrija aqui se eu estiver errado, quando você fala 440, você tá falando da nota, mas isso é uma nota específica que pode variar acho que dois hertz para cima ou para baixo, alguma coisa assim

Kassin – Isso, são padrões de afinação, a música pop normalmente é 440 aonde você afina o Lá, e às vezes em música clássica é 442, às vezes 444 em algumas situações.

Henrique de Moraes – Eu achei legal explicar porque as pessoas acho que não tem noção, né

Kassin – Pra não ficar um papo só técnico, né

Henrique de Moraes – Isso, é uma variação muito pequena né cara, especialmente no meio da massa né

Kassin – É, isso no meio de 16 violinos, pra grande maioria das pessoas é imperceptível

Henrique de Moraes – Verdade, é incrível mesmo. E cara já encaminhando aqui pras perguntas que são mais rápidas, tem algumas perguntas que eu faço pra todo mundo, pra todos os entrevistados, e uma delas é como equilibrar a vida pessoal e trabalho, mas eu tenho impressão de que a sua vida pessoal e trabalho se misturam o tempo inteiro né?

Kassin – Não, pior que não cara. Eu tenho assim um, eu desenvolvi ao longo dos anos, eu tô no meu terceiro filho né, então por exemplo eu decidi já a alguns anos atrás e bastante influenciado pelo meu amigo Mario Caldato, eu decidi assim trabalhar diurnamente e me propor uma rotina sabe, então eu trabalho entre 11h e 19h horas da noite no máximo 20h, e não trabalho sábado nem domingo, e antes de ir para o estúdio, antes de começar as coisas eu tento planejar de uma maneira que eu consiga realizar tudo que eu preciso, eu sempre tenho na minha cabeça tudo que eu preciso ter pronto aquele dia para eu ter conseguido cumprir as coisas que eu tenho que cumprir aquele dia, é óbvio que se alguma coisa vai pra um outro lado, acontece alguma coisa eu lido com aquilo naturalmente, mas eu me proponho a tentar cumprir essas metas pra que eu não vire um escravo do meu trabalho. E eu acho assim, que uma coisa que isso gerou na minha vida, porque eu já tive esse momento de sei lá, fazer dois discos ao mesmo tempo, trabalhar de manhã de tarde e de noite, só voltar para casa e dormir 6 horas, não ver os filhos, e neste momento que eu fazia isso eu via que eu tava perdendo o prazer de escutar música, que para mim é a coisa que me leva a fazer música, então um dos fatores assim é de que eu preciso ter tempo em casa para escutar discos e pra estar ouvindo música desfrutando aquilo.

Henrique de Moraes – Legal, isso é muito importante mesmo, você conseguir, primeiro ter uma rotina saudável de trabalho, e encontrar esses espaços né cara, para curtir porque senão além de você perder o prazer, você perde até a inspiração né, porque uma coisa tá ligada diretamente a outra né, é lógico que você tem todas as suas habilidades ali sempre, você não vai perder mais né, mas ainda assim você entrar no estúdio, talvez sem inspiração, também pode ser que não flua tão bem o trabalho, né

Kassin – É, eu acho que o estúdio tem um fator inspiração e um fator planejamento, eu acho por exemplo, que quando você tá conversando com alguém sobre que disco que a pessoa quer que aquele disco seja, algumas decisões técnicas já são tomadas ali, eu acho que se você fala assim “Ah, quero fazer um disco, precisa ser um disco pop, muito competitivo, tem que chegar em muita pessoas”, você não pode fazer um tipo de orquestração ou um tipo de gravação que vá ser baixo, você tem que soar alto pra caramba em qualquer lugar, alto e claro, ou sei lá, você fala assim “Cara, quero fazer um disco com muita dinâmica”, aquilo já muda o tipo de disco que vai ser quando você tá escolhendo o repertório né, basicamente. Então eu acho que assim, parte do que você visualiza para um disco, isso não é assim para a grande maioria das pessoas, eu tô falando para mim que já fiz muitos discos, mas para mim quando eu tô conversando com alguém sobre um disco, eu já visualizo coisas que vão me levar até chegar com ele até o final, de microfonação, de quem vai tocar, de que tipo de coisa tem que ser, aquilo já vai direcionando sabe, um certo aspecto da execução do álbum. E aí eu acho que isso dá mais espaço, se você consegue propor que sua mente vá para esse lugar, isso dá mais espaço pra inspiração, porque você tem mais tempo pra tirar a questão técnica de lado, a questão da execução, se você já planeja tudo desde o início, a questão técnica ela não é uma pedra no seu caminho, ela já está ali.

Henrique de Moraes – Muito bom, eu ia perguntar exatamente sobre alguma coisa de planejamento que você tivesse, mas você já se adiantou e já falou, muito bom. Além do hábito de colocar essas regras pra sua vida, de horário de trabalho, de não trabalhar fim de semana, você tem algum outro hábito que você tem implementado pra ter uma vida mais saudável? E aí pode ser fisicamente, mentalmente.

Kassin – Cara, eu medito de manhã

Henrique de Moraes – Todos os dias?

Kassin – Todos os dias, pelo menos 10 minutos, de 10 à 20 minutos.

Henrique de Moraes – E qual o método você usa? Usa algum aplicativo?

Kassin – Cara, eu uso Headspace

Henrique de Moraes – Headspace? Legal

Kassin –  Só a ideia de foco, de concentrar assim no dia e, eu moro e trabalho em Botafogo, que é um bairro difícil de andar, é um bairro com calçadas estreitas e com muita gente, muita densidade demográfica, então eu tenho uma esteira em casa, e aí eu também caminho todo dia, pelo menos 40 minutos, mas eu acho assim que eu poderia estar mais saudável, poderia estar com menos peso do que eu tô, e eu acho que isso também é um pouco inevitável porque eu passo o dia inteiro sentado

Henrique de Moraes – É, fica mais difícil, mas também assim, acho que é um passo de cada vez, a gente vai implementando uma coisa de cada vez, e é melhor do que a gente tentar fazer tudo de uma vez só também né

Kassin – Essas duas coisas especialmente, de meditar e de caminhar são as coisas que me dão assim, o dia que eu não faço é estranho

Henrique de Moraes – Muito bom meditar, eu uso o Headspace também, e é engraçado, eu sinto isso também, mas eu sinto especialmente depois de um longo período assim, se eu consigo ficar 10 dias seguidos, e às vezes eu pulo 1 por algum motivo específico, uma reunião

Kassin – Exatamente, o dia que você não faz parece que você está, doendo né

Henrique de Moraes – É, é muito louco né como faz diferença, é muito engraçado.

Kassin – É a mesma coisa caminhar, o dia que eu não caminho assim uns 40 minutos parece que eu durmo mal, a coluna dói

Henrique de Moraes – A gente já não sabe se é fator psicológico ou não né

Kassin – É, eu não sei, acho que é um dia diferente, até de atenção mesmo.

Henrique de Moraes – Verdade. E pelo que você falou da sua história você sempre trabalhou com música e como produtor desde muito novo, mas em algum momento você pensou em fazer alguma coisa diferente disso?

Kassin – Olha, eu comecei a trabalhar com 12 anos, eu fui um pouco de tudo né, trabalhei em loja, fui office-boy, fui digitador de placar do Maracanã

Henrique de Moraes – Essa é boa

Kassin – Eu já fui aquele cara que entrega panfleto na rua, já trabalhei nos Estados Unidos, trabalhei limpando chão de bar, já fui assistente de estúdio, já passei por vários trabalhos. Agora assim, como uma carreira é até engraçado porque eu nunca pensei, por isso até eu tava tocando naquele assunto da possibilidade de uma longevidade na carreira, porque para mim eu nunca pensei que eu poderia ser o que eu sou hoje porque não é uma coisa que você fala “Vou fazer uma faculdade”, naquele momento não era, hoje em dia você por exemplo fez uma faculdade disso, na época que eu trabalhava isso nem existia. Eu nunca achei assim que aquilo poderia ser uma profissão mesmo, sabe? Principalmente áudio e estúdio, eu falava assim “Pô eu sou músico mas eu também não tenho essa atração toda em tocar ao vivo, eu gosto mais do estúdio, estúdio é uma coisa que é meio assim”, era uma coisa distante entendeu? Então eu me considero, eu penso isso e parece até assim ridículo falar sobre isso, mas eu penso todos os dias, eu penso nisso, como eu tenho sorte de estar esses anos todos conseguindo viver desse trabalho que é um trabalho que eu amo, é uma sorte muito grande

Henrique de Moraes – Verdade

Kassin – Óbvio que tem um pouco de talento, tem um pouco assim de bom senso, mas é uma sorte, é muita sorte porque eu conheço milhões de pessoas tão ou muito mais talentosas que eu que às vezes não conseguem, não conseguem fazer as coisas que gostariam de fazer na vida, então eu acho que tem uma sorte muito grande aí.

Henrique de Moraes – Legal que você trouxe isso, porque muita gente não, ou não tem esse senso de gratidão né, por ter conseguido fazer o que ama assim, não percebe isso talvez, e que faz uma diferença na sua vida você se sentir feliz e grato tanto por ter conseguido conquistar o que você conquistou, e também pela sorte né, que muita gente não dá valor ao papel da sorte também né, na vida.

Kassin – É, eu acho por exemplo, eu penso, óbvio que eu penso muito sobre isso né, mas eu acho por exemplo, esse negócio que você perguntou “Ah teve algum projeto que foi mais difícil?”, eu sempre ao longo dos anos, me senti com tanta sorte de estar podendo executar o trabalho que eu executo, que eu nunca achei por exemplo “Poxa que saco, vou ter que fazer aquele negócio hoje”, isso é uma coisa que nunca passou pela minha cabeça, independente de que projeto e que artista fosse, eu sempre acho que a coisa do áudio, e nesse caso assim do estúdio, a beleza do ofício é você poder estar ali pensando uma coisa diferente do que você pensaria normalmente, que eu acho que se eu estiver tratando do meu lado artístico, eu sei exatamente como eu quero que ele seja, como ele deve ser executado, mas isso é muito diferente da coisa da produção, acho que na coisa da produção a beleza do ofício é você ter que pensar num estilo completamente diferente do seu, e ter que ter a maestria de lidar com aquela estética diferente, ou com os desejos de outra pessoa, e tornar aquilo viável enquanto um produto estético, eu acho que isso é a beleza do ofício da produção, então assim, não tem nenhum disco que eu fiz na vida que eu pensei assim “Pô, que saco”, sempre até mesmo a ideia de que eu tenho que me adequar àquilo ou de que eu tenho que tocar baixo de um jeito diferente naquele álbum ou tenho que pensar um outro tipo de som, eu acho que a beleza do ofício é isso, não é exatamente ter uma assinatura, é você poder ter uma amplidão estética, que você não teria só como artista.

Henrique de Moraes – Perfeito, muito legal. Me diz assim no geral, qual foi o melhor conselho que você já recebeu?

Kassin – Cara eu recebi muitos conselhos bons na vida, mas tem coisas assim que toda vez eu penso assim, um é da avó do Domênico, uma vez ela chegou toda suada num almoço de família, aqueles de domingo, eu tava conversando com ela, ela tava com uma coisa na garganta, tipo um enfisema, tava com a voz meio rouca, e eu falei “Tudo bem com a senhora?”, ela falou “Pô fiquei duas horas esperando no ponto de ônibus, esse sol desgraçado, e a música não toca”, aí esse negócio é engraçado porque não é exatamente um conselho, mas a ideia é uma ideia que eu levo comigo, que assim, o sol e a espera tudo bem, mas a música não tocar não tá legal, sabe assim, quando a música não toca é que tem algo errado, e aquele negócio eu levo, não é exatamente um conselho, mas é a ideia.

Henrique de Moraes – Sim, sim, muito bom.

Kassin – A outra coisa foi um cara que ouviu a seguinte pergunta do MichaelJackson, uma pergunta engraçada porque ela é uma pergunta e uma afirmação, o cara tava com Michael Jackson numa situação, um produtor americano e ele tava falando uma coisa e o Michael Jackson falou assim “You love music, don’t you?”, isso é engraçado porque é uma pergunta e uma afirmação que basicamente justifica o fato de você passar tantas horas fazendo aquilo, sabe? Então é uma espécie de, não é exatamente um conselho, mas é assim, tem produtor que em alguma situação que às vezes eu falo assim “You love music, don’t you?”, então continua nessa parada que isso tá, se você ainda tá amando isso aí, tá bom.

Henrique de Moraes – Legal. E você lembra assim, nos últimos, talvez cinco anos, qual foi o momento que você esteve mais feliz e porquê?

Kassin – Cara, é engraçado porque eu não me lembro muito de momentos tristes, mas eu acho que eu tenho sorte de ter um monte de momentos felizes em estúdio, esse estúdio que eu tenho agora, ele é uma ideia que eu tinha a muitos anos, e eu já tô nesse estúdio a seis anos, eu tinha um estúdio anteriormente com o Berna e com o Daniel Carvalho e era um estúdio que fazia muita coisa de trilha então não era um estúdio preparado pra gravar ao vivo, e eu lembro que eu saí do estúdio pensando assim “Pô, preciso fazer um estúdio legal pra gravar ao vivo”, pra poder ter um ambiente onde você possa tocar todo mundo ao mesmo tempo e ter essa interação que é uma coisa que naquele estúdio eu não conseguia fazer, eu sempre tive que procurar outro estúdio maior, então eu consegui realizar isso, esse estúdio que eu tenho hoje é preparado pra isso, tecnicamente e de espaço, quantidades de salas e tal, e aí eu acho que isso foi um grande passo na minha vida, então assim, eu acho que, isso de seis anos pra cá, não que antes não tinha, mas de seis anos pra cá inclusive intensificou porque eu tô trabalhando num lugar que eu acho que é incrível e eu consigo realizar todas as coisas que eu quero realizar ali sem problema algum

Henrique de Moraes – Legal, muito bom. Você tem algum livro que tenha impactado muito a sua vida?

Kassin – Cara, não sei, acho que são tantos livros, mas de música?

Henrique de Moraes – Não, livros em geral, que por algum motivo tenha te marcado, se quiser a gente pode deixar, se quiser lembrar aí a gente passa pra outra e depois volta nela ou então até pula, se achar melhor.

Kassin –  Isso é engraçado né, porque você lê tanto que às vezes acaba, eu não tenho um livro específico assim, não, mas eu leio bastante, eu sou aquela pessoa que fica lendo 2, 3 livros ao mesmo tempo

Henrique de Moraes – Sou desses, também. Eu comecei a fazer isso na verdade tem pouco tempo, porque eu ouvi de um cara que eu admiro bastante, e ele me fez mudar um pouco a forma de enxergar os livros né, que ele fala o seguinte, que depois que a gente começou a ler online né, ler texto de blog, essas coisas que são mais rápidas, a gente começou a achar que a gente estava super informado né, e quando você pega um livro, que é maior, mais denso, vai dar mais trabalho, você acaba desistindo no meio do caminho, e ele falou que ele tinha parado de ler, ele sempre leu muito, e tinha parado de ler por algum motivo e ele tava tentando se entender e falou “Cara quer saber, eu vou começar a encarar os livros como textos de blog, eu vou abrir em qualquer lugar, vou ler, se eu gostar eu continuo, se não gostar não continuo, pulo para outro e vou testando até parar em um que eu goste e eu leio ele até o final, e às vezes eu volto no outro”, e ele falou que fica pulando de um livro para o outro e eu achei interessante e eu fiz uma comparação ainda diferente, depois eu comecei a pensar “Cara, o problema do livro é você parar e não ler outro livro, não começar outro porque você não terminou aquele né”, e muita gente faz isso “Ah não, nem terminei o outro livro, não vou começar esse aí”, só que a gente não tem esse mesmo apego por exemplo a séries de TV né, se você vai assistir Netflix e você vai assistir um negócio que não tá gostando muito você vai pular pra outro e pronto.

Kassin – É, você se deixa levar né, é mais prazeroso. Eu fico dando pulinhos assim em livros, tô tentando lembrar de um, lembro de vários

Henrique de Moraes – E filme, documentário?

Kassin – É que nem disco, eu não consigo falar um disco, se você fala “Pensa em um disco”, isso é impossível, eu tenho uma parede aqui de discos pra escolher um, sabe?

Henrique de Moraes – Eu até cortei essa pergunta, falei “Cara, acho que vai ser difícil”

Kassin – É impossível pra mim

Henrique de Moraes – E você tem algum filme ou documentário favorito?

Kassin – Cara, filme favorito também não tenho não, e olha que eu acho que cinema é outra arte que assim, se eu pudesse, eu só não fui trabalhar com cinema porque eu acho que cinema demora muito tempo, o tempo que o cara faz um filme eu faço sei lá, vinte e poucos discos. Pô, cinema é muito demorado, mas eu tinha vontade de trabalhar com cinema assim, é uma arte que eu acho muito impactante, você pode trabalhar com tudo aquilo, com fotografia, com texto, com música.

Henrique de Moraes – Verdade. Ainda dá tempo, de repente rola um reviravolta aí

Kassin – É, fazer um filme né?

Henrique de Moraes – Verdade. E cara, penúltima pergunta aqui. Se você pudesse ter um outdoor gigantesco em qualquer lugar do mundo e esse outdoor estivesse em um lugar que passassem milhares ou bilhões de pessoas, o que você colocaria nele e porque?

Kassin – Nossa, que pergunta hein cara? Cara, eu acho que poria assim “Seja Feliz”, porque acho que as pessoas não estão preocupadas com isso, né? As pessoas estão preocupadas com várias coisas mas não com a própria felicidade, e a vida fica muito mais fácil quando você é feliz, né, fica mais fácil para as pessoas em volta de você

Henrique de Moraes – E se você, aproveitando a sua resposta então, se você tem alguma dica prática assim de alguma coisa que você acha que se as pessoas implementarem elas podem ser mais mais feliz assim, tipo implementar amanhã, quero mudar esse hábito amanhã, você acha que  tem alguma coisa, meditação você falou, mas tem alguma outra coisa?

Kassin – Eu acho que as pessoas tem que ter o hábito de olhar pra si e para o entorno. O Brasil então é um lugar engraçado, porque as pessoas não pensam coletivamente de maneira nenhuma assim, não tem nenhuma sensação de pátria ou de coletividade, é uma coisa assim que é um cada um por si desgraçado né? E eu acho que se você consegue enxergar isso dentro de você, enxergar o que que você pode mudar em volta de você aquilo gradativamente vai mudando, mas é uma coisa que tem que ser empregada todos os dias né.

Henrique de Moraes – É como a meditação né, só vai fazer o efeito se você fizer regularmente

Kassin – É que nem tudo né, não é imediato, é que nem tocar, é que nem são os discos, se você chegar pra gravar e você ainda não tem a música, você não tem a música, não adianta. Se você não está apto a tocar guitarra, pra tocar guitarra naquela música que você não sabe, não é durante a gravação que você vai ficar apto, você tá fazendo porque você tá fazendo, as coisas se movem mais assim como uma coisa de inércia, se você tá fazendo uma coisa, você tende a continuar fazendo, se você não tá fazendo você tende a não continuar fazendo, são como se fossem músculos que as pessoas precisam exercitar.

Henrique de Moraes – Verdade, concordo. E você tem alguma recomendação de podcast, de app, ou de pessoas que você acha legal seguir online, qualquer recomendação nesse sentido?

Kassin – Eu não ouço muito podcast assim pra ser sincero, uma coisa que eu faço parte e meio por causa disso eu ouço é uma rádio online que se chama Worldwide FM, eu tenho um programa lá que se chama “Point of View”, essa rádio é uma rádio do Gilles Peterson, que é aquele DJ inglês, e é um rádio que tem DJs e colecionadores de disco ao redor do mundo, tenho um programa lá de 2 horas, junto com meu amigo João Duprat, e aí a gente acaba escutando o que os outros fazem também, mas eu não tenho assim coisas online que eu sigo, ou que eu fico, tem um coisa assim que eu acho que ao longo da vida eu não tenho nem dentro de casa um tipo de música específica que eu ouço, ou um tipo de filme, sabe, ou um tipo de livro. Tem umas horas que eu tô assim, sei lá, quero ver como é que aprende a fazer kombucha, ou no dia seguinte eu quero ler uma biografia, sabe assim, eu não tenho um centro de interesse porque assim, a coisa da música é uma coisa que toma muito meu tempo e meu foco, então a outra área toda ela não tem assim uma área específica, eu tenho curiosidades múltiplas, sabe?

Henrique de Moraes – Legal. E por último, onde é que as pessoas podem te encontrar online se elas quiserem saber mais de você, quais são as redes que você faz parte, como que troca mais com o pessoal?

Kassin – Eu uso o Facebook e Instagram, eu tenho um website meu kassin.co, e respondo lá se alguém mandar mensagem ou qualquer coisa, tenho meu canal do YouTube mas o pessoal  põe os clipes lá mas assim, as mensagens chegam, eu tento responder todo mundo, às vezes eu não consigo mas eu tento olhar assim, o que tão me falando, tento não ser distante das pessoas sabe, às vezes é difícil porque também trabalhando tantas horas por dia fica difícil ficar alimentando a rede social, eu não fico o dia inteiro na internet, eu olho a internet sei lá, uma vez por dia, nem tenho muito tempo pra estar conectado dessa maneira

Henrique de Moraes – Entendi. É bom, saudável também né, eu acho pelo menos.

Kassin – Tudo é bom, pra quem é bom estar na internet, é bom estar na internet

Henrique de Moraes – Verdade. E o seu Instagram, qual é?

Kassin –  É @kassin.co, que nem o site.

Henrique de Moraes – Beleza, perfeito. Kassin, cara, muito obrigado pelo seu tempo

Kassin – Pô valeu Henrique, foi ótima a entrevista, obrigado

Henrique de Moraes – Curti bastante e espero que sei lá, em breve a gente consiga marcar outro e quando tiver a comemoração eu vou te chamar hein cara

Kassin – Você é do Rio?

Henrique de Moraes – Eu sou de Niterói

Kassin – De Niterói, pô vou aparecer lá de surpresa, vai ser foda

Henrique de Moraes – Vai ser foda mesmo, vai dar bug no cerebro de todo mundo

Kassin – Pô se a gente armar isso direito vai ser inacreditável

Henrique de Moraes – Vai ser bom cara, vou, a gente vai tocar isso ao, esperar passar essa fase aí, a gente marca então

Kassin – Sabe um lugar, aquele canal, galera daquele canal Music Box lá em Porto Alegre?

Henrique de Moraes – Não conheço

Kassin – É o canal de videoclipes que tem na TV a cabo, eles me falaram que eles têm esse ritual também, que é tipo uma coisa comemorativa, tem canecas com foto minha

Henrique de Moraes – É mesmo? Que maneiro, fiquei com inveja agora, Eu quero as canecas, pô

Kassin – Pois é, eu falei “Pô, eu quero isso ai”, caneca foi foda

Henrique de Moraes – Caneca eles mandaram bem, vou providenciar isso aí também porque agora fiquei com inveja

Kassin – É eu devia arranjar, fazer uma série de canecas com fotos do clipe né

Henrique de Moraes – Verdade, ia ser legal se tivesse tipo cada caneca num momento de vocês espalhando pó sobre a cidade, e colocar uma do lado da outra

Kassin – Ia ser foda

Henrique de Moraes – Muito bom cara, obrigadão Kassin Kassin – Pô valeu Henrique, abraço aí bicho.

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